O Renascimento dos séculos XV e XVI irrompeu como janela estufada por forte vento e a beleza e forma invadiram a sala escura e fria do homem medieval. Qualquer obra deste período, arte ou literatura, é imortal prova do superior, da perfeição que está no homem, muito acima do ordinário. Entre Dante, Leonardo, Maquiavel, Rafael e Erasmo, um passo a frente e um ponto acima está Michelangelo, artista do sublime, pintor, escultor, arquiteto, pai da Capela Sistina e de Davi. 500 anos passados, sua arte é marca indelével da perfeição a tal ponto que a lenda conta que terminando seu ‘’Moisés”, de pé diante da estátua, falou admirado ‘Perchè non parli?’ – ‘Porque não falas?’.

Poucas coisas a fazer no cotidiano, nós que não somos Michelangelos, tem estatura desta arte que extasia. São reduzidas chances que temos de produzir arte sublime alguma vez na vida – com exceção dos filhos e, há quem diga, da vida conjugal. O mundo é suficiente para nos envolver com tarefas necessárias e bem terrenas: trabalhar, abrir empresas e empregos, pagar contas e salários e assim prosseguir em direção ao futuro. Tudo isto é importante, ninguém duvida, mas para muitos escapa que esta é a nossa versão moderna de uma arte, a arte de viver. “Lieben und arbeiten” – “Amar e trabalhar”, bem disse Freud que são as coisas que mais importam para ser humano. Vamos deixar o “Amar” de lado e ficar aqui com o “Trabalhar”.

À Michelangelo se atribui autoria: “Lembra-te que insignificâncias causam a perfeição e a perfeição não é uma insignificância.” Podemos ve-lo trabalhando, perfeccionista, investindo esforço nos detalhes, menores e minúsculos, com férrea disciplina. Qual a lição aqui?

O “trabalhar”, que alcançou estatuto de preencher os dias de todos nós, pode ser feito com parte do empenho possível, com um pedaço do compromisso possível, com uma fração da perfeição possível? Se é assim, com negligência branda e diluída que não compromete o resultado final, quem respeitará nosso trabalho e esforço? Ilusão, pois ninguém fica de pé diante do trabalho mal-feito, ordinário e estes não duram até a próxima estação. O trabalho que precisa ser feito, deve ser bem feito.

Você será respeitado pelo esforço à busca do trabalho perfeito, mesmo que não o alcance, ao contrário da displicência e desatenção. Mesmo que não alcance perfeição, o esforço deixará marcas nos detalhes, nas atitudes, no conhecimento. E se não é isto que leva àquela sabedoria prática, esta sabedoria do fazer e do executar, então, o que leva? Está enganado quem busca caminho alternativo.

Há quem troque de trabalho e invés de padaria, abre loja de ferragens, invés do trabalho de balcão, prefere trabalho de escritório. Mas fica de pé o compromisso de fazer o trabalho, qualquer trabalho, bem feito, fica de pé o compromisso com a perfeição das insignificâncias.  E se Freud está certo – provavelmente está -, negligenciar o trabalho é viver pela metade. Aquele que é indiferente ao resultado do seu trabalho vive pela metade. Indigno. A perfeição não é uma insignificância.