No artigo anterior afirmei que a simplicidade captura potência das ideias e prossigo dizendo que é difícil derrubar esta assertiva, tentando usar a complexidade como coluna de sustentação das ideias que resolvem problemas. A natureza não age dessa forma – pela via da complexidade – e nós somos e estamos na natureza. Por que, então, insistir?

Guilherme de Occam, monge que viveu há uns 700 anos, foi precursor do pensamento moderno e racional. Para resolver grave problema político e religioso que se viu envolvido, entre um rei e o papa, usou um tipo de raciocínio que conhecemos como Navalha de Occam: um argumento que defende que a hipótese mais simples provavelmente é a correta. A Navalha de Occam segue utilizada em algumas situações mas o que interessa aqui é que Guilherme, para colocar seu raciocínio de pé e fazê-lo resistir séculos, usou uma coluna de sustentação muito mais antiga que ele.

Alcançar a simplicidade potente não é fácil. Quando expulsa pela porta da frente, a complexidade supérflua se esgueira pela porta dos fundos e volta para sentar ao lado de tudo que é humano: na sua empresa tudo que é feito é porque é necessário e feito do modo mais simples? No financeiro, gestão de estoque, negociações com clientes, sem arriscar palpites, sempre há complexidades desnecessárias e inúteis, ainda que inocentes e baratas. Nas relações pessoais muitos são exagerados e supérfluos no agir ou pensar. Equívoco foi acreditar que no caminho do progresso tínhamos que abandonar a simplicidade. Isto é convite para retornar ao estilo de vida primitivo? Não, seria burrice.

A simplicidade potente se obtém a partir da antiga coluna que Guilherme usou para apoiar seu raciocínio e podemos voltar 2500 anos para encontrar suas fundações – perdemos a verdadeira autoria, não importa. Basta reconhecê-la como princípio, o Princípio da Parcimônia: “É inútil fazer com mais o que se pode fazer com menos”.

O Princípio da Parcimônia vale para tudo que está na natureza, homem e suas obras. Este Princípio deve ser emoldurado e pendurado à vista de todos que entram em sua sala, seu escritório e na sua empresa. Precisa estar no Manual de Boas Vindas para o novo funcionário contratado, em todos os crachás e cada reunião deveria começar depois deste Princípio falado em voz alta. Vulgarizado no discurso cotidiano tornando-se “pra que complicar?” ou, versão histérica, “faça mais com menos”, perdeu o vigor do latim original:

Frustra fit per plura, quod fieri potest per pauciora : é inútil fazer com mais o que se pode fazer com menos.

Tremendo equívoco, expulsar a simplicidade potente deixando entrar a complexidade supérflua. Certo que dá trabalho, e muito trabalho, cortar excessos, eliminar exageros, descartar peso extra – mas afinal para que servem navalhas? A complexidade supérflua é maliciosa, charmosa, cheia de truques e se não houver crises, ela fica sentada onde está.

Mas, ora bolas, temos tanta responsabilidade a cumprir, na empresa e na vida pessoal, que quem insistir em deixá-la entrar merece ser jogado porta afora junto com ela.