Coluna fundamental das economias nacionais, as empresas familiares contribuem para geração de riquezas, crescimento e desenvolvimento. Fato consagrado e crescem os esforços para entender suas características e ajudá-las a resolverem desafios, que não são poucos.

Entre estes, o desafio da sucessão. Nós, brasileiros, temos o ditado: “pai rico, filho nobre e neto pobre” que captura, com jeito debochado, as ameaças da sucessão mal feita. Mas, veja só, encontramos este ditado na versão italiana “Della stalle a la stella a la stalle” (Do estábulo para as estrelas para o estábulo), na chinesa “Cáifù bù huó sāndài” (Riqueza não vive três gerações) e na espanhola “Padre bodeguero, hijo caballero y nieto pordiosero” (Pai comerciante, filho cavaleiro, neto mendigo) e, provavelmente, em muitos outros idiomas. É prova que o desafio da sucessão é universal.

Podemos correr o planeta conhecendo versões locais da mesma advertência, assim como podemos desenrolar o fio da história para encontrar episódios dramáticos que mostram que este ditado não se limita a uma sabedoria popular: Jorginho Guinle, carioca herdeiro de fortuna familiar, morreu falido e morando de favor no hotel que já não pertencia mais à sua família, o Copacabana Palace, no Rio. Outro clã poderoso, os paulistas Matarazzo, viram o império fundado pelo Conde Francisco, que chegou a somar mais de 200 empresas, as Indústrias Reunidas Fábricas Matarazzo, cair numa espiral descendente até desaparecer. Além de universal, o desafio é devastador se não for superado.

Houve quem superou e de todos que conheço, recordo de um pai e seu filho, uma sucessão, a maior de todas, em toda a história ocidental e oriental. 3,5 bilhões de pessoas conhecem esta história. Uma lição eterna sobre o desafio da sucessão. Está lá em Gênesis, capítulo 22. Vou contar a história do meu jeito mas vale a pena ler o texto original:

A noite, depois que seu filho dormiu, Abraão ouviu a voz do Senhor: Abraão! E Abraão respondeu: Estou aqui, Senhor! Deus ordenou que Abraão fosse com Isaac até certo local e lá sacrificasse seu filho como prova de fé.

Podemos imaginar o desespero de Abraão: como desobedecer essa ordem divina?

Na manhã seguinte, Abraão e Isaac se prepararam para a jornada mas Abraão não contou a ordem que recebeu. Colocou um fardo pesado de lenha sobre os ombros de Isaac e iniciaram a jornada.

No caminho, Isaac falou: Meu pai! E Abraão respondeu: Estou aqui, meu filho! Isaac continuou: Pai, estou com a lenha e vejo o fogo em suas mãos mas onde está o cordeiro para o sacrifício? E Abraão respondeu: Deus proverá, meu filho. Continuaram caminhando e adiante Isaac tornou a chamar: – Meu pai! – Estou aqui, meu filho! – Onde ergueremos o altar? E Abraão respondeu: Deus irá indicar, meu filho. Por fim chegaram e foi quando, entre lágrimas, Abraão revelou a terrível ordem. Com a alma sangrando, mas cheia de fé, Abraão amarra Isaac, o coloca no altar, ergue a mão para sacrificá-lo e subitamente o anjo do Senhor o detém: Abraão! E Abraão respondeu: Estou aqui, Senhor! O anjo continuou: Não estendas tua mão sobre o moço e não lhe faças mal; porquanto sei que temes a Deus e não negaste o teu filho. Aqui está o cordeiro.

Abraão é patriarca das grandes religiões monoteístas – Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. A lição, que ilumina o desafio da sucessão – Abraão morreu cheio de anos, em boa velhice e entregou o que tinha para seu filho – transcende a mensagem de fé. Aqui está e são duas: primeiro, Abraão separou pesado fardo de lenha e colocou nos ombros do seu filho. Isaac carregou o peso. Seu pai não “fez o trabalho” no lugar dele e durante a jornada Abraão permaneceu ao lado do Isaac. Segundo, todas as vezes que foi chamado, Abraão respondeu prontamente “Estou aqui”. Isaac chamava e seu pai estava pronto para atendê-lo.

Lição para toda eternidade. Se ensinarmos nossos Jorginhos, Chiquinhos e outros jovens herdeiros, de igual modo tal lição, o fio da história será entretecido de mais episódios abençoados de sucessão em empresas familiares.