Aproxima-se a Semana Santa na qual revivemos momentos decisivos de nossa Redenção, no coração do ano litúrgico palpita o Mistério Pascal de Cristo. Deus que, já feito carne no Natal, para a Salvação dos homens, por eles se entrega na Cruz.

O início dessa Grande Semana é celebrado no Domingo de Ramos, pórtico dos mistérios celebrados no Tríduo Pascal. Revivemos na Liturgia a triunfal entrada de Jesus em Jerusalém. Entra montado em um jumento, animal de paz, alguns dos seus o saúdam: “Bendito o que vem em nome do Senhor” (Lc 19,38). No decorrer da mesma celebração, proclama-se um segundo Evangelho, o da Paixão do Senhor, encontramo-nos logo após o jubilo da entrada triunfal, com o escândalo da cruz.

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(Filme “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, 2004)

No contexto da Instituição da Eucaristia a Igreja fixa seu olhar naquele que é o Sumo e Eterno Sacerdote, que exercerá ao máximo seu ministério ao entregar-se até a morte e morte de cruz. Nesse dia, a Igreja, povo Sacerdotal, se reúne ao redor do Bispo Diocesano e do clero, os quais, na Missa do Crisma, renovarão as promessas sacerdotais pronunciadas no dia da Ordenação. “É um gesto de grande valor, uma ocasião propícia como nunca na qual os sacerdotes reafirmam a própria fidelidade a Cristo que os escolheu como seus ministros” (Papa Emérito Bento XVI).

Nessa Missa Crismal são abençoados o óleo dos enfermos e o dos catecúmenos, além de confeccionado o óleo do crisma. Estes são ritos que significam a plenitude do Sacerdócio de Cristo e a comunhão eclesial que reúne o povo de Deus a seus pastores, celebrando o Santo Sacrifício unidos pelo Dom do Espírito Santo.

O Cristo, o ungido de Deus é a Cabeça do Corpo, que é a Igreja, da qual participamos, e como tal, se prepara para celebrar solenemente o Tríduo Pascal, que é composto, naturalmente, por três dias, cada um com um sentido bem definido.

O primeiro dia é a Sexta-Feira Santa. Ele que se entregou até a morte e morte de Cruz. Nota-se que para os Judeus, o dia começa ao entardecer, não a meia noite, e a Igreja utiliza esse modo para esquematizar suas celebrações. Desse modo, a Missa Na Ceia do Senhor já faz parte do primeiro dia do Tríduo Sacro: a tarde da Quinta-Feira Santa e a Sexta foram como que um só dia, o primeiro.

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(Imagem: Assessoria)

 

A Missa chamada In Coena Domini (Na Ceia do Senhor), a Igreja comemora a Instituição do Sacerdócio, da Eucaristia e o Mandamento novo do amor, tem um caráter solene, porém muito sóbrio, Cristo Nosso Senhor que por nós se entregou na Cruz, quis antes, deixar essa entrega para sempre no coração da Igreja, ao entregar-se no vinho e no Pão está garantindo que no dia seguinte não fugirá, mas vai entregar seu corpo com toda sua natureza humana, pois “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).

E para que tenhamos essa força de amar como Ele, deixa-nos a Eucaristia, sob as aparências do pão e do vinho Ele torna-se presente com o seu corpo entregue e com seu sangue derramado.

Intimamente ligada à Instituição da Eucaristia está a Instituição do Sacerdócio ministerial, presença real de Cristo para presidir sua Igreja e a Eucaristia, Ele que não veio para servir mas para dar a vida em resgate de muitos (Mc 10,45), convida-os não para um poder, mas serviço aos irmãos, até dar a vida. Ao lavar os pés dos Discípulos, Jesus compromete-se a servi-los até a morte.

A Igreja pede aos fiéis para permanecerem junto ao Senhor, vivo e presente na Eucaristia, imolado e glorificado, recordando a hora triste que Jesus passou em solidão e oração no Horto. É a resposta amorosa da Igreja Àquele que a amou e se entregou por ela.

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Na Sexta-Feira da Paixão a Igreja mantém profundo silêncio, o Esposo lhe foi tirado. Os fiéis se reúnem para a Solene Celebração da Paixão do Senhor. A Palavra de Deus ilumina o mistério da Cruz, pois olhando-a com os olhos da razão não possui sentido algum; vendo-a com a luz de nosso entendimento humano é sinal que não vale a pena ser bom, pois o mal e a morte triunfam; porém, a Palavra de Deus é quem dá sentido à tão cruel sacrifício.

Bento XVI afirma que “como diante da Eucaristia, assim diante da Paixão e morte de Jesus na cruz o mistério torna-se insondável para a razão. Somos postos diante de algo que humanamente poderia parecer surdo: um Deus que não só se faz homem, com todas as necessidades do homem não só sofre para salvar o homem assumindo toda a tragédia da humanidade, mas morre pelo homem”.

Nesse dia adoramos o Lignum Crucis, a arvore da Cruz, o glorioso instrumento da redenção humana. Nessa adoração proclamamos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. Não beijamos e nos prostramos diante do material, o gesso e a madeira, mas diante do Mistério, o que ele significa.

É um dia cheio de tristeza, mas oportunidade para renovar a fé, a esperança e a coragem de carregar nossa cruz cotidiana com humildade, confiança e abandono a Deus, na certeza de seu apoio e da Vitória.

A Igreja permanece, com Maria, à espera da Ressurreição, vigilante e confiante.

O Sábado Santo constitui o segundo dia do Tríduo Pascal. O Senhor Jesus que, na ceia se entregou até a morte de modo ritual, e se entregou na cruz de modo histórico-existencial, agora encontra-se na morte, “desceu a mansão dos mortos”, como professamos todos os Domingos.

É o ponto mais baixo do Tríduo Pascal, dia do grande silêncio. O Senhor desceu ao mais baixo, experimentou a derrota terrível da morte, morte ligada ao pecado, Ele que não tem pecado. Dia esse de pensar no sentido da vida, na nossa morte unida à morte de Cristo, caminhando para a Ressurreição.

O recolhimento desse dia nos conduz para a noite da Solene Vigília Pascal, a “mãe de todas as vigílias”.

Rompe-se o grande silêncio orante quando em todas as Igrejas irrompe o cântico da alegria pela Ressurreição do Senhor. Uma vez mais proclamamos a vitória da vida sobre a morte, da luz sobre as trevas, e a Igreja rejubila pelo encontro com seu Senhor. É o terceiro dia do Tríduo Sacro. Essa celebração é o núcleo fundamental da Liturgia Católica ao longo de todo o ano.

Vários elementos expressam a passagem das trevas à luz, da morte à vida nova na Ressurreição: o fogo, o círio, a água, o incenso, a música, os sinos.

A luz do círio é sinal de Cristo luz do mundo que irradia e ilumina a todos. O fogo é o Espírito Santo acendido por Cristo no coração dos fiéis. A água significa uma a vida nova em Cristo. O aleluia é o hino dos peregrinos rumo à Jerusalém celeste. O pão e o vinho para a Eucaristia são penhor do Banquete Escatológico do Cordeiro. Ao celebrarmos a Santa Vigília Pascal, reconhecemos pela fé que a santa assembleia é a Comunidade do Ressuscitado.

É Páscoa, é passagem. A primeira foi da escravidão do Egito à liberdade na terra prometida, hoje livres somos da escravidão do pecado e da morte para a liberdade dos filhos de Deus, em seu Reino de amor.

Nesse tempo novo inaugurado pela Ressurreição de Cristo, somos convidados a buscar as coisas do Alto, elevar os corações a Deus em gratidão pela Redenção recebida gratuitamente pelo sacrifício de Cristo, e vencida a morte, a Ressurreição de Cristo nos dá a certeza de nossa Ressurreição e da Vida eterna.

 

(Texto: Claudir Catto)