O esforço do homem primitivo para entender o mundo desaguou na mitologia clássica, grega e romana, incrível coleção de deuses e criaturas sobrenaturais. Gaia, por exemplo, deusa primordial, é o chão firme, terra nutriz onde a vida se desenvolve, mãe natureza que recebe seres vivos – como não se encantar pelas fábulas mitológicas? Interessante também é como a mitologia clássica encosta na realidade dos tempos atuais. Na nossa vida de empresas, por exemplo.

O empresário e líder enfrenta, no cotidiano, dilemas que fogem a simples categorização ética tipo preto ou branco quando interesses contraditórios se enfrentam na arena das decisões, um amparado na moralidade, outro escondido na penumbra da imoralidade, ambos legais. Veja aquelas situações onde manobras deliberadas são feitas para escapar das responsabilidades, as mesmas que alcançam os chamados “patos e tontos”. De pé e em voz alta, teóricos da Administração repetem, na mais das vezes, apelos que, incapazes de sensibilizar os agentes, equivalem aos sermões dominicais que satisfazem os carolas – os mesmos que, na manhã da segunda-feira, resolvem dilemas morais dando de ombros para as lições do pastor.

Janos, deus mitológico com duas faces que olham em direções opostas, é o porteiro do céu que submete todos a uma prova. Em seu teste, uma das faces fala a verdade enquanto outra mente, confundindo decisões de consequências difusas, a quem enfrenta dilemas e ambiguidades e se socorre dessa divindade para resolver a equação moral. Genial homem primitivo, quando vemos que a mitologia tem mais de 2500 anos.

Nosso tempo é de dilemas, de ambiguidades e de escalas de cinzas – pelo que temos hoje em mãos nada indica que será diferente no futuro, não importa quão distante esteja a linha do horizonte. Será que vamos ter que aprender na marra, cansados de tantos escândalos morais – no público e no privado – a rejeitar escolhas que nos levam a consequências difusas? Pelos modelos atuais, ética e boa moral não é instrumento para ganhar dinheiro ou para mobilizar os agentes. Caso fosse, restariam empresas que não as praticassem em toda extensão?

Então, não é o discurso que precisa ser mais eficaz mas o contexto que precisa mudar. As exortações são estéreis e estamos pulando de escândalo em escândalo, estarrecidos com a magnitude crescente. A retidão moral, neste contexto atual, é franzina. Mas, perceba o paradoxo da sua força: toda vez que algum fato do cotidiano se destaca pelo constraste com o contexto atual, viraliza e oferece perspectiva alternativa: acabei de ler sobre lojista em São Paulo que, resolvendo o defeito do smartphone de um cliente sem cobrar – porque achou justo -, virou referência instantânea, com enorme fila na porta.

Certo, mudar o contexto. Eis o primeiro passo: é nossa responsabilidade, nós empresários, nós líderes. Pelo ato convicto de rejeitar as consequências difusas, rejeitar escolhas imorais mas legais, pelo exemplo, não pela ambição das recompensas possíveis num jogo de soma zero. Pelos valor dos princípios. A sociedade olha para nós quando procura modelos e nossos atos, morais ou imorais, replicam em toda cadeia.

O teste de Janos reprova os fracos. Este deus, veja só, também é guardião das portas e transições. Batizou o primeiro mês – janeiro. No primeiro instante do primeiro dia do ano não é quando fazemos promessas de renovação e de progresso? Pois bem, deve ser nossa promessa: finalmente com a ética e boa moral, consciente que suas recompensas não são financeiras. Ao menos, neste nosso contexto atual.

Empresário e líder: o valor moral das nossas decisões, das nossas escolhas, é que vai mudar o contexto onde a sociedade irá resolver seus dilemas.