Em sua primeira entrevista coletiva como ministro da Saúde, o deputado federal licenciado Ricardo Barros (PP), ao falar sobre o uso da fosfoetanolamina sintética – a “pílula do câncer”, afirmou que mesmo diante da falta de comprovações científicas sobre a efetividade da substância, “a fé move montanhas”. Desde a aprovação da produção e uso da fosfo pelo Poder Legislativo e a sanção da presidente da República, Dilma Rousseff, órgãos de fiscalização, controle e sociedades médicas têm demonstrado contrariedade à forma com que o assunto foi debatido pelo meio político.

De acordo com Barros, o Ministério irá debater com o Congresso as próximas medidas a serem adotadas após a aprovação da lei para uso, produção e comercialização da fosfoetanolamina. “Pessoalmente, acho que na pior das hipóteses é o efeito placebo. Dentro dessa visão, se ela não efetividade, mas se as pessoas acreditam que tem, a fé move montanhas.”, declarou.

A recomendação do Ministério da Saúde, antes mesmo da troca de comando da pasta, era de que o projeto fosse vetado. Para a equipe técnica e para associações médicas, a substância não passou por testes de comprovação de segurança e eficácia, e por isso, pode trazer riscos à saúde dos pacientes. Questionado se acredita que a pílula, de fato, é eficaz, Barros disse “não ter opinião técnica sobre isso”.

Para o farmacêutico e docente do Instituto Federal do Paraná – Câmpus Palmas, Sul do Paraná, Rodrigo Batista de Almeida, a aprovação da fosfo faz com o Brasil “retroceda décadas por conta do domínio político de uma questão que deveria ser técnica”, enfatizando que a aprovação de medicamentos não deve passar pela esfera política.

Reafirmou a necessidade de estudos e testes para a comprovação da efetividade ou não, da fosfoetanolamina, seguindo padrões técnicos, delimitados e definidos pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Em meio às discussões sobre o tema, muitos apontam que as opiniões contrárias à pílula do câncer são sustentadas pela própria indústria farmacêutica. “Sempre tem essa história, a teoria da conspiração, de que indústria já tem a cura do câncer mas não quer revelar porque perderia dinheiro. Eu não sei, e ninguém sabe se a indústria tem a cura para o câncer, provavelmente não tem, pois se tivesse, iria vender muito, porque, infelizmente,  o homem sempre teve câncer e sempre vai ter, por diversos motivos”, afirmou.

Uma das alternativas apresentadas pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, um dos órgãos à frente das pesquisas sobre  a fosfo, é a de catalogar a substância, inicialmente, como suplemento alimentar, para que a população tenha acesso legalizado a ela, enquanto os testes de efetividade são realizados. Sobre esse ponto, Almeida também demonstra contrariedade, pois, mesmo que as primeiras pesquisas apontem baixa toxicidade, a eficácia ainda não foi comprovada. “Se você aprova-la como suplemento, se venderia a ideia que você teria a pílula do câncer que cura, ou até previne, à disposição de qualquer pessoa, o que iria pipocar ofertas de produtos em programas de televisão vendendo um frasco, compre um ganhe outro, os 15 primeiros que ligarem ganharão um brinde. Isso não é nenhum pouco interessante.”, opinou.

Além disso, aponta que países em desenvolvimento, como o caso do Brasil, em que parte da população, muitas vezes, encontra-se em estado de vulnerabilidade social, baixa escolaridade e fragilizada diante de uma doença, não haveria discernimento para a administração de determinadas substâncias, ocasionando outros problemas de saúde pública.