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Dom Edgar presidiu a celebração na Paróquia São José, em Francisco Beltrão, no dia 1 de maio.

O fenômeno pandêmico em curso no Brasil, a Covid-19, tem nos deixado perplexos e, às vezes nos limitando ao máximo de tudo o que fazíamos no cotidiano de nossas vidas, em especial na vida religiosa/eclesial, nas atividades da ação evangelizadora desta Igreja Local.

Em seu artigo semanal, Dom Edgar Xavier diz: “Muitas reflexões têm-se feito em torno desta oceânica epidemia, que nos surpreende a cada instante, tirando-nos a possibilidade de quaisquer perspectivas para um futuro próximo ou/e distante quanto ao que chamamos de “normalidade de nossas agendas e eventos programados”.

Leia o artigo na íntegra

“Nós não sabemos”!

O fenômeno pandêmico em curso no Brasil, a Covid-19, tem nos deixado perplexos e, às vezes nos limitando ao máximo de tudo o que fazíamos no cotidiano de nossas vidas, em especial na vida religiosa/eclesial, nas atividades da ação evangelizadora desta Igreja Local. Muitas reflexões têm-se feito em torno desta oceânica epidemia, que nos surpreende a cada instante, tirando-nos a possibilidade de quaisquer perspectivas para um futuro próximo ou/e distante quanto ao que chamamos de “normalidade de nossas agendas e eventos programados”.

Estamos partilhando com todas as pessoas um momento difícil. Para muitos é um momento dramático. Não está sendo fácil viver este tempo de isolamento social, eclesial, presbiteral, episcopal… Outras vezes, somos pressionados de todos os lados porque o tema do coronavírus vem sendo discutido sob diversos vieses, tais como ideológico, político, econômico, religioso, litúrgico e canônico, inclusive nas dioceses e paróquias. Como sobreviver numa confusão sem precedentes e todos pretendentes da última palavra e previsões? As interrogações são infinitas. Trata-se de um caminho do qual nunca poderemos dizer com certeza para onde ele nos levará. Preciso confessar que eu não sei ou dito de outro modo, no plural, “nós não sabemos”. Estamos diante da misteriosa e invisível Covid-19.

Eu também confesso novamente ser seguidor do humilde “nós não sabemos”. Todavia, nós os humanos, diante da pandemia não precisaríamos temer, no sentido do desespero frenético e doentio. Em tese, não deveríamos temer e sofrer. Como driblar as diversas crises advindas da pandemia? Como administrar as consequências do pós-pandemia? Deveríamos temer, isto sim, a cegueira do desespero, porque o desespero é a “doença para a morte”. Deveríamos temer aos homens públicos, colocados nos palcos administrativos para governar a sociedade em todos os seus aspectos. O que vemos e assistimos diariamente não é nada disso!

A fé em Deus já não representa mais um aspecto importante. Talvez não representasse. Se fizermos um “diagnóstico espiritual” desta atual cultura da secularização, notamos em crescimento a “cultura da ausência de Deus” na vida de tantas pessoas. Isto é notável em adolescentes e jovens. Estes ao ingressarem nas faculdades/universidades dispensaram a prática religiosa de suas vidas. Ausência de quaisquer que sejam as práticas das virtudes religiosas. Bastam para a vida hodierna os prazeres e algumas possibilidades de sensações de alegria e bem-estar. A Sociologia das Religiões chama de “secularização” – “viver simplesmente das coisas do século” – do palpável, do comprovado pelas ciências, do prazeroso, às vezes, a qualquer custo. Cremos no que é comprovado pelas ciências. Estas tendências modernas advêm da ideologia do materialismo. O secularismo que aqui em breves frases descrevemos de igual modo está caracterizado pelos ideólogos políticos, pelas mídias, pelas universidades, pelo comércio, pela vida com facilidade sem que haja renúncias ou sacrifícios em hipótese alguma. Sugiro como leitura o livro de Milan Kundera, “A insustentável leveza do ser” para entendermos as tendências de uma vida superficial.

São dias de tribulações sim, mas “nós nos gloriamos também nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a perseverança, a perseverança a virtude comprovada, a virtude comprovada a esperança. E a esperança não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Rm 5,3-5). O Espírito Santo tem despertado inciativas eclesiais louváveis em nossa Diocese nestes tempos de epidemia. Deus seja louvado por cada momento solidário, fraterno, celebrativo, eclesial vivido em cada realidade paroquial. São muitos os sinais de esperança que renovam e fortalecem a nossa fé. Para os novos tempos, pós-epidêmico, devemos afirmar categoricamente que a fé, a esperança e o amor não acabam. Eles são valores perenes. Resta-nos cultivá-los no interior da cultura secularizada e materializada, mas traumatizada!

Dom Edgar Ertl