O Governo do Paraná tornou públicos os salários dos professores da rede estadual de ensino, através do Portal da Transparência. De acordo com o Executivo estadual, os docentes receberam os salário integral, já que os descontos pelos dias parados só serão feitos a partir do próximo mês.

A divulgação desses valores gerou indignação tanto de professores, como também de pais de alunos da rede pública estadual. Professores contestam o Governo, alegando que os salários foram alterados. Pais criticam o movimento grevista, diante dos salários apresentados pelo Governo.

"Mais do que nunca, nós queremos estar na sala de aula. O que nós não queremos é entrar na sala de aula de forma injusta", pontuou Ana Paula P.Dalpra
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“Mais do que nunca, nós queremos estar na sala de aula. O que nós não queremos é entrar na sala de aula de forma injusta”, pontuou Ana Paula P.Dalpra

Para buscar esclarecimentos sobre os salários divulgados, o RBJ entrou em contato com a presidente do Núcleo Sindical da APP-Sindicato em Pato Branco, sudoeste do Paraná, Ana Paula Pereira Dalpra, que explicou a origem dos números apresentados pelo Governo. Segundo ela, os salários não foram alterados, pois tratam-se dos valores brutos, acrescidos de terço de férias, aulas extraordinárias e outros acúmulos qe estavam em atraso. Sobre os rumos da greve, a professora disse que a categoria deposita suas esperanças nos deputados estaduais, para que defendam os interesses do funcionalismo.

Na última semana, o Governo do Estado passou a divulgar os salários dos professores do todo o Paraná. Ana, esses salários são verídicos? Aqui em Palmas, por exemplo, constatou-se professores com salários de R$19 mil, R$ 13 mil, R$ 12 mil, R$ 10 mil. Esses salários correspondem aos ganhos dos professores?

Então, colocar os nossos salários no Portal da Transparência é um reivindicação do sindicato, porém, a forma como foram usados esses valores não é verídico. Por quê? Porque neles constam o valor bruto e a maioria dos salários que apareceram são de pessoas com acúmulos para receber, por exemplo, terço de férias, aulas extraordinárias que não recebeu no primeiro mês e foram receber retroativo agora. Então, nesse sentido, nós não concordamos que sejam generalizados os valores aaltos. Tem sim algumas pessoas que ganham um valor mais alto, que tem um cargo comissionado, que ganha um extra, mas não chega a 10% da categoria, que em média tem seu salário em torno de R$ 3 mil, R$ 4 mil para 40 horas. Nós não temos vergonha de expôr nossos salários, só que a gente quer que coloquem o real, não o valor bruto e de apenas algumas pessoas com mais de 30 anos, quase se aposentando e com cargos comissionados.

Professores de Palmas manifestando-se contra o governador e deputados da base aliada
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Professores de Palmas manifestando-se contra o governador e deputados da base aliada

Ana, o governador do Estado, várias entrevistas, coloca que um professor, começando a carreira no magistério estadual, ganha em torno de R$ 3,2 mil. Procede? Qual é o salário de um professor iniciando a carreira hoje?

Hoje nós temos o professor que ingressa no concurso ganhando, fora o auxílio-transporte, em torno de R$ 1,2 mil. O que o governador anuncia é a soma do auxílio-transporte que não é incorporado no nosso salário e que também está previsto para ser cancelado caso a gente não tenha ido à escola, ou nós estejamos com licença, enfim, ele está tentando tirar esse auxílio-transporte e aí baixa esse valor. Mas, o salário mínimo de quem ingressa por concurso público é esse.  O sindicato luta há muito tempo por causa desse salário que ganhamos mesmo tendo graduação, pós-graduação, muitos professores com mestrado, pra iniciar a carreira no Estado com esse valor para 40 horas. Essa soma que o Governo apresenta são 40 horas. Lembrando que todos os concursos são de 20 horas e não de 40. Então, nada nos garante que o salário esteja em R$ 3 mil e sim, a garantia de R$ 1,2 mil que nós entramos no Estado.

Então são R$ 1,2 mil para 40 horas, é isso?

Não, para 20 horas.

R$ 1,2 mil, para 20 horas.

E o valor que o governo apresenta nas falas dele já conta com o valor de 40 horas, mas quem garante que esse professor trabalha 40 horas no Estado? Só se ele conseguir um contrato das outras 20.

Em média, Ana, um professor já com seus 20 e poucos anos de carreira no magistério, qual é o salário dele? Visto que aqui em Palmas boa parte dos professores já estão nesse faixa, há mais de 20, 25 anos atuando no magistério. Tem mais ou menos uma média salarial desses professores?

Um professor com 20, quase 30 anos, quase se aposentando, ele teve duas opções: Se ele prestou uma prova para entrar do PDE, ou ele fez o processo seletivo de entrada no 3º nível do nosso plano de carreira, ele está ganhando um pouquinho a mais. Tem professores que estão se aposentando que não entraram nesse nível 3, não conseguiram entrar nesse nível, porque também é um processo seletivo que não é fácil. Quem entrou e está perto de se aposentar, hoje ganha, bruto, você sabe que bruto é sem nenhum desconto da previdência, sem nada, em torno de R$ 8 mil.

Quem não entrou nesse processo seletivo e está perto de se aposentar, ganha em torno de R$ 6 mil, bruto. Lembrando que nós temos 11% de desconto da previdência e mais os descontos extras com relação à sindicato, à empréstimos e mais o desconto do auxílio-transporte. Então, esse valor é o bruto e está exposto no Portal da Transparência. O que nós ficamos pensando é “será que é digno o salário de quem trabalha há 20, 30 anos na educação?” e ter que se explicar ainda pra ganhar esse valor, sendo que muitos comissionados do Governo entram no Estado com R$ 12 mil inicial já. Então é um valor que nós estamos, sim, querendo, não temos vergonha de expor o salário da categoria, mas é uma contradição, a gente ter que justificar o motivo da nossa greve e dos nossos salários.

Professores de Palmas relembraram o 29 de abril em ato na Praça Bom Jesus
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Professores de Palmas relembraram o 29 de abril em ato na Praça Bom Jesus

Ana, alguns professores alegam que os salários foram alterados. Pela sua explicação não é bem assim, né? Foi um salário recebido, alguns com valor bruto, outros com acúmulos. Então esses salários não foram alterados pelo Governo?

Então, muitos estão falando sobre alterações. Alterações porque apareceu o valor bruto, nem nós sabíamos mais qual é o valor bruto. Realmente, o valor bruto é aquele valor alto, adicionado o terço de férias e outros compromissos à receber. Alguns casos isolados que foram alterados, já foram encaminhados para o departamento jurídico da APP-Sindicato. Parece que lá em Curitiba alguns valores realmente foram alterados, mas já foi tudo encaminhado para a APP-Sindicato.

Na sua opinião, qual caminho a greve está seguindo? Porque constata-se que muitos pais, no inicio, apoiavam o movimento dos professores. Só que nesse momento, muitos pais já se mostram contrários ao movimento, tamanho prejuízo que os filhos estão tendo ao não poderem estudar, principalmente os alunos do ensimo médio que no próximo ano esperavam poder entrar no ensino superior e vêem essa possibilidade afetada. Quais os rumos que a greve está tomando?

Nós estamos passando por esse momento de a sociedade começar a se manifestar também. Aqui em Pato Branco nós temos um grupo de pais que está se manifestando e nós vemos isso de forma favorável para o nosso movimento. No momento que os pais começam a pedir ao Governo, reivindicando que as negociações se encerrem, que se apresente algum tipo de solução, para nós é favorável, porque nós, assim como os pais, estamos preocupados em dar continuidade ao ano letivo. Mais do que nunca, nós queremos estar na sala de aula. O que nós não queremos é entrar na sala de aula de forma injusta, de forma não vitoriosa do nosso movimento.

Nós temos também uma guerra efetivada do Governo com a APP Sindicato, porque, afinal, o que nós estamos reivindicando é para todo o funcionalismo público, mas a APP Sindicato está carregando nas costas esse confronto e o Governo está usando de todos os meios mais imorais, sujos, no momento em que ele faz telefonemas, dizendo que nós tivemos 60% de aumento, que é irreal, usando mídia, ele tem muito poder aquisitivo, nós não temos dinheiro para combater a mídia, as propagandas que ele veicula nos meios de comunicação e isso acaba prejudicando e fazendo com que muitos pais acabem não entendendo os motivos reais da greve.

Nessa semana , o foco da APP Sindicato é estar conversando com os pais, nos meios de comunicação, pedindo para ir até ao sindicato, aos dirigentes, aos representantes, explicando que, se nós estamos em greve é justamente para garantir o futuro do funcionalismo público do Paraná. Então o filho dele vai ter ano letivo, a gente está com essa esperança, nós queremos que volte o mais rápido possível, vamos tentar garantir na discussão da reposição de aula a maior qualidade possível para os alunos. A gente quer que os pais compreendam que o retorno das aulas não depende dos professores, depende do governo. O governo precisa apresentar uma proposta e retirar outra proposta de achatamento do nosso plano de carreira, porque esse último projeto que ele enviou para a Assembleia, ele simplesmente prejudica todo o plano de carreira dos professores.

Então, nesse sentido, a gente pede o apoio dos pais. Eles têm todo o direito de reivindicar e é positivo. Que eles protocolem assinaturas, abaixo-assinado, e enviem para o governo, porque somente o governo terá condições de nos chamar para a negociação, nós estamos abertos. A coordenação estadual está todo dia lá em Curitiba pedindo para o governador nos atender, mas ele não quer. Aí dificulta e a sociedade muitas vezes não sabe disso.

Você fala que o governo, com essa nova proposta, vai achatar o plano de carreira dos professores. Explica pra gente o que será alterado no plano de carreira dos professores com a proposta.

Nós temos direito ao piso nacional federal. O piso nacional é vinculado ao nosso plano de carreira e todo ano tem o aumento do piso, estabelecido pelo governo federal. Esse aumento deve ser efetivado no mês de janeiro. Aqui no Paraná não foi efetivado. O que que acontece? Nessa proposta que o governador mandou para a ALEP, tem um parágrafo que ele desvincula o piso nacional do plano de carreira. Ou seja, cada vez que tiver aumento do piso nacional, nós que estamos na ativa, trabalhando, não vamos receber esse aumento. Quem vai receber são apenas aquelas pessoas que estão entrando no Estado, com aquele salário inicial.

Como vai ficar só no salário inicial e não vai levar esse percentual de aumento para as demais classes do plano de carreira, ele vai achatar quem já está há mais tempo no Estado. Em 2, 3 anos aquele pessoal que já está há 10 anos no Estado vai receber o mesmo valor que o professor que está entrando no Estado, isso é achatar o plano de carreira e isso que ele está propondo, desvincular o piso nacional do nosso plano. Isso é inadmissível, a gente não pode aceitar, porque quem entra, entra geralmente só com a graduação, depois vai ser efetivada a pós e quem já está no Estado, tem várias pós-graduações, muitos professores têm mestrado e daí o salário vai ser igual, nós achamos que isso não é justo e nós queremos que ele retire esse parágrafo e os nossos deputados estão trabalhando para fazerem emendas, para retirar esse artigo que está imposto no projeto de lei.

Ainda não há nenhum indício de acordo com o governo? A APP, inclusive, ainda não convocou nenhuma assembleia. O que que se espera? Há algum prazo para os professores, algo nesse sentido?

Nós temos muita expectativa com os nossos deputados, que eles consigam tomar as medidas necessárias para que a gente não saia no prejuízo em relação à esse projeto de lei. Assim que eles resolverem e conseguirem aprovar as emendas que nós da APP passamos e que seja favoráveis à educação e aos demais funcionários públicos, nós chamaremos a assembleia. Existe um indicativo de uma assembleia para o próximo dia 9, porém, se os deputados entrarem em acordo antes e o governo sancionar, a assembleia vai ser antecipada. Nosse desejo é que a assembleia aaconteça antes. Temos esperança que se resolva tudo nessa semana, mesmo com o feriado desta semana, estamos à disposição do governo para negociar a qualquer momento.