Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, o que também não é impossível de acontecer. Mas em se tratando de outros eventos climáticos, a cidade de Abelardo Luz foi acometida nesta semana por dois temporais de granizo no mesmo dia, e, coincidentemente na mesma data (dia 22 de outubro) da primeira, no ano de 1988, quando a área urbana também foi atingida por uma das maiores pedreiras da sua história.

Desde aquela data já se passaram 27 anos e muitos temporais atingiram o município, porém nenhum evento trouxe tantos estragos a tantas famílias como as chuvas de granizo que aconteceram no dia 22 de outubro de 1988 e de 2015.

A “grande pedreira” de 1988 ainda é um fato que não saiu da memória de muitos moradores da cidade que tinha cerca de 8 mil habitantes. “Era um sábado à tarde de bastante calor. Quando vi, o céu começou a ficar escuro. Eu vim para casa me preparar porque tinha um casamento na igreja Matriz para fazer”, conta o fotógrafo aposentado Jair Zonta, que registrou da janela da casa a intensa chuva de gelo no fundo do quintal.

“Deixei meu carro (um Chevette) ali na frente (do Prédio) e depois quando passou o temporal saí la fora para ir pro casamento meu carro não pegou. Tinha quebrado os faróis e estava todo ele amassado”, conta.

“As duas pedreiras são quase iguais. Essa de 88 foi bastante estragos e pegou toda a cidade também. Eu calculo que durou de 15 a 17 minutos. Mas as pedras daquela época não eram tão grandes como as de agora, mas caiu em mais quantidade. O chão ficou todo branco de gelo. Quebrou inclusive os vidros das casas porque veio com vento junto”, afirma o fotógrafo que guardou de recordação uma única foto da tempestade.

MANCHETE DE JORNAL

O Jornal O Falção da época, que circulava uma vez por mês, estampou na capa os prejuízos causados pela tempestade de granizo. Segundo informações da publicação, a pedreira de 1988 afetou cerca de 1.700 residências e trouxe muitos prejuízos incalculáveis à agricultura.

De acordo com os relatos, três dias após ser castigada pelo granizo, a cidade foi afetada por uma forte enchente, no dia 25 de outubro de 1988. Um bueiro do rio  Lageado Gregório, que corta a cidade, teria entupido fazendo a água transbordar. Ruas e várias casas ficaram alagadas. Uma residência chegou a ser arrastada pela força da água.

A CENA SE REPETE 27 ANOS DEPOIS

Coincidentemente 27 anos depois da “grande pedreira” de 1988, a cena voltou a se repetir e assustou os moradores da Abelardo Luz de agora com quase 18 mil habitantes. Desta vez foram dois temporais no mesmo dia. O primeiro aconteceu logo ao amanhecer, às 7h ( horário de verão) com mais de 150 casas danificadas.

Cerca de 11 horas depois, o que ninguém imaginava era ver novamente a chuva de gelo trazer mais transtornos às famílias. Por volta das 18h20, horário que muitas lojas já estavam fechadas, um novo temporal de granizo, ainda mais forte, caiu sobre a área urbana, atingido também o interior. Algumas casas foram atingidas nas duas vezes.

Segundo dados atualizados da Defesa Civil, o temporal atingiu 13 bairros e quatro comunidades do interior. Até agora 1.389 residências foram atingidas, número que pode ainda aumentar já que falta concluir 30% do levantamento dos danos. O total de pessoas afetadas diretamente já passa de 4 mil.

De acordo com a Defesa Civil, na agricultura, os danos maiores foram registrados nas lavouras de trigo, milho, soja, fumo e feijão. Pelo menos 12 pessoas ficaram feridas ao cair dos telhados enquanto consertavam e outras cinco pessoas ficaram desalojadas.

Diante do cenário de grande destruição e prejuízos, o município deve Decretar Situação de Emergência. A decretação deve ocorrer após a finalização do levantamento que está sendo feito de casa em casa pela equipe da Defesa Civil e voluntários.

A RECONSTRUÇÃO 

Nas duas ocorrências, em 1988 e 2015, foram montados mutirões para atender urgentemente às famílias inicialmente com lonas e, posteriormente, com distribuição de telhas. No episódio de 1988, os recursos eram poucos, mas uma força tarefa liderada pela prefeitura e com a solidariedade de muitas pessoas foi possível fazer a reconstrução das casas.

Em 2015, novamente a solidariedade e a ajuda humanitária estão amenizando os impactos dessa nova tragédia na vida dos abelardenses. O trabalho de recuperação conta com o envolvimento de mais de 65 pessoas entre funcionários da Defesa Civil, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar, funcionários da Prefeitura, voluntários das entidades e organizações, imprensa e demais cidadãos que estão dando suas colaboração.

Ainda sábado (24), dois dias após a tempestade de granizo, a Defesa Civil já começou a doação de telhas de fibrocimento às famílias mais carentes. Segundo o bombeiro Odair Carminatti, já foram distribuídas 2.567 de 4 milímetros e 188 folhas de 6mm.