A solução da crise economica mundial é deixada quase que exclusivamente a políticos e economistas, mas o Papa também fala a respeito e indica questões que precisam ser levadas em conta para a sua superação.

“Os últimos anos forão marcados por uma crise económica e financeira global de enorme gravidade, que abalou todas as economias do mundo, tanto ricos como pobres.
Segundo um estudo feito pelo espanhol, Jesús Colina, nos ensino de Bento XVI, o Papa tem tratado com frequencia este tema:
O Papa Bento XVI aborda a questão, principalmente na encíclica Caritas in Veritate, nela ele fala de quatro elementos essenciais para superar a crise econômica: a necessidade de mudar os costumes ético, um novo governo no mundo das finanças, a promoção da justiça social e do desenvolvimento dos povos, e a necessidade de colocar as pessoas no centro do desenvolvimento.

Um mercado que não é estranho à ética
O Papa adverte que o mercado não é apenas um sistema que funciona, independente de ética, porque a economia é uma atividade humana e como tal é uma atividade moral de que a pessoa é responsável.

Durante o voo do Airbus 320 com destino a Madrid em 18 de agosto de 2011, como de costume, o Papa reuniu-se com os jornalistas que o acompanhavam no voo, respondendo às suas perguntas. E uma de suas declarações se tornou notícia mundial: “a economia não pode funcionar fora da ética”.

A economia não é um sistema autónomo
“Na verdade, o Papa não fez nada mais que repetir as objeções que a doutrina social da Igreja sempre manteve ao liberalismo radical e a crença de que o sistema econômico se autoregula sem a necessidade a intervenção de uma ética exterior”. (CV, 34)
O Papa, em linha com o ensino de seus antecessores, diz que a economia não é um “stand alone “, mas como uma atividade humana é direcionada para o bem comum, e está sujeita aos princípios morais, especialmente a dois que se complementam: a justiça e a solidariedade”. (CV, 6, 7, 71)

“A Justiça diz, que se deve guiar todo o processo econômico, desde a aquisição de matérias-primas até a distribuição de riqueza. Isto inclui aspectos fundamentais: o dever de justiça para com a natureza na obtenção de recursos, a justiça do trabalho para o trabalhador, a justiça nas relações comerciais, a justiça entre ricos e pobres, etc”.

Bem comum e mercado
“Por exemplo, um dos pontos em que o Papa insiste novamente e novamente é a necessidade de revitalizar o tecido sindical, para “encontrar uma nova síntese entre o bem comum e o mercado, entre o capital e o trabalho” e enfrentar os desafios relacionados com a globalização, como a deslocalização de empresas. (CV, 40, 63, 64)

Sustentar investimentos de longo prazo
“Outro ponto fundamental para Bento XVI é a moralidade na política de financiamento: em sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2009 insistiu que o financiamento deve retornar à sua missão original, que é a de sustentar os investimentos econômicos a longo prazo, em vez de buscar o benefício imediato e favorecer a especulação”. (CV, 65)

Solidariedade e gratuidade
“Junto com as obrigações de justiça, o Papa sinaliza para outra necessidade, a solidariedade e a gratuidade, ou seja, que o sistema econômico não forneça apenas os elementos relacionados com a transação econômica, mas também aqueles relacionados à solidariedade e gratuidade, como o trabalho de “sem fins lucrativos” que ajudam o desenvolvimento, etc. Isto significa que o sistema econômico não pode ignorar essas ações que não buscam o lucro, pois o homem é acima de tudo um ser chamado ao amor, e a família humana depende principalmente de relações de solidariedade: o princípio de gratuidade e a lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem encontrar lugar dentro da actividade económica normal”.

Evitar a especulação
O Papa também propõe uma autoridade pública de competência universal, que implemente uma regulação e fiscalização das finança, com vista ao bem comum universal e para evitar fenómenos especulativos como o que causou a crise.

Crise provocada pelo lucro a curto prazo
Bento XVI, em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz 2009, falou pela primeira vez sobre a crise financeira que eclodiu no verão anterior, e, sem estigmatizar o papel das finanças na economia, mas observou que um das causas da crise foi o compromisso dos agentes financeiros em benefício de curto prazo.

Apoiar investimentos de longo prazo
O Papa propõe uma recuperação da verdadeira essencia das finanças, que surgiu como uma forma de “criar novas oportunidades de produção e de trabalho a longo prazo,” para apoiar a capacidade dos investimentos a longo prazo e, assim, promover o desenvolvimento, ” abandonar” puramente a lógica “auto-referencial “que não levam em conta o bem comum. (CV, 57)

Uma ética financeira
A receita para uma “ética financeira”, correta, capaz de recolocar no centro a dignidade da pessoa humana, está contida na encíclica Caritas in veritate. Nela o Papa enfatiza particularmente o micro-crédito e, também os microfinanciamentos que permitem o acesso ao crédito também para os pobres que não têm recursos, dando-lhes garantias de seus empréstimos, proporcionando assim “ajudas concretas para a criação de iniciativa e novos setores em favor das camadas mais vulneráveis da sociedade, mesmo numa fase de um possível empobrecimento da própria sociedade “(n. 65).
Sugere um governo global para regular as finanças
Em uma carta ao primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, e aos lideres do G20 antes da sua reunião em Londres, em 2009 o Papa disse que se perdeu a confiança nos instrumentos financeiros e no sistema econômico, e lançou a idéia de uma governança global dotado de “poder efetivo” para assegurar o respeito “aos princípios de solidariedade e subsidiariedade”. (CV, 67)

Em 24 de outubro de 2011, poucos dias antes do G20 em Cannes (França, 2011), o Pontifício Conselho “Justiça e Paz”, em conformidade com o magistério papal, publicou um artigo sobre a necessidade de reforma do sistema financeiro internacional, que atualmente carece de regras generalizadas, compartilhadas e eficaz.

Anteriormente, em um documento também publicado pelo Pontifício Conselho “Justiça e Paz” à frente da cúpula da ONU, realizada em Doha (Qatar) em 29 novembro a 2 dezembro de 2008, o Vaticano critica os chamados “paraísos fiscais” ou “centros financeiros offshore”, culpando-os, tanto de transmitir a crise como de ter causado o seu desenvolvimento, e indica como questões importantes: “a rastreabilidade das transacções financeiras, a prestação de contas das operações sobre os novos instrumentos financeiros, e a cuidadosa avaliação de riscos”.
Uma prova do compromisso de Bento XVI neste sentido é a decisão de aplicar a todas as agências da Santa Sé as normas internacionais contra a fraude e lavagem de dinheiro, instituindo uma Autoridade de Informação Financeira (IDA) projetado para monitorar a implementação com um motu proprio, de 30 de dezembro de 2010.


Desenvolvimento dos mais desfavorecidos

Um dos pontos mais urgentes e importantes para a superação da crise é o de promover o desenvolvimento dos povos mais desfavorecidos, inclusive o Papa defende a cooperação para o desenvolvimento como um meio de superar a crise, para criar empresas e postos de trabalho.

Significativamente, a Caritas in Veritate é declarada, e no seu preâmbulo, herdeira da Populorum Progressio do Papa Paulo VI (1967). Essa encíclica foi a primeira a incluir na doutrina social da Igreja os desequilíbrios mundiais entre o Ocidente e o Terceiro Mundo, em linha com o Concílio Vaticano II.

»Bento XVI retoma os aspectos essênciais: a vocação humana para progredir e melhorar o mundo, considerando a humanidade como uma família em que todos são responsáveis uns pelos outros, e a compreensão da justiça social em termos planetários. A Caritas in Veritate aborda estas questões a partir de uma nova perspectiva, a globalização. (CV 22)

Desenvolvimento não pode ser somente o crescimento econômico
O Papa reafirma que o desenvolvimento não pode ser reduzido a um simples crescimento económico, mas, para ser autêntico, deve ser integral, ou seja, ele deve promover todos os homens e o homem todo: deve ser um desenvolvimento solidário, em que nenhuma nação seja deixada para trás.

Na verdade, o advento da globalização põe mais em evidência esta necessidade. A globalização é vista como uma grande oportunidade para promover o desenvolvimento dos países pobres, eles podem fazer ouvir a sua voz como nunca antes: “abrindo caminho para a unidade e a paz à cidade do homem, tornando-a, em certa medida uma antecipação que prefigura a cidade de Deus sem barreiras”.

Não para G-20, sím para a ONU
“O Papa insiste, portanto, na necessidade de um conceito universal de justiça e do bem comum bem como na promoção do princípio da solidariedade entre os povos, através da justiça nas relações internacionais. Uma proposta é que os problemas econômicos não sejam abordados em pequenos círculos como o G-20, mas na própria ONU, que deveria ser reformar-se para refletir melhor este conceito de “família de nações”.

Obstáculos ao desenvolvimento
O Papa vê como um obstáculo para o desenvolvimento os protecionismos econômicos Ocidental, que bloqueia o comércio prejudicando os mais pobres, e certas leis de propriedade intelectual que impedem o compartilhamento das tecnologias necessárias para o desenvolvimento. Além disso, de uma maneira nova, convidou os países ricos a investir no desenvolvimento de países pobres, como “um verdadeiro instrumento de criação de riqueza para todos.”

Gestos de solidariedade
Naturalmente, apela também para os gestos de solidariedade, mediante as ajudas procedentes do Produto Interno Bruto, ou pela generosidade e cooperação com os países pobres na luta contra o fenômeno da migração. Aos consumidores, o papa também pediu uma atitude de “responsabilidade social”, considerando que o ato de compra “é sempre um ato moral, e não apenas econômico.”

Mesmo em seu discurso na FAO (Organiação da ONU para Alimentação e Agricultura, Roma 16 de novembro de 2009), o Papa dá um passo além e sugere que a melhoria do sector agrícola dos países em desenvolvimento “também pode ser uma forma de solução para a atual crise global.”

“Outra questão que o Papa insiste, é a exploração dos recursos naturais e a luta contra a mudança climática, que afeta particularmente os países pobres..

Bento XVI defende o desenvolvimento humano integral incluindo o progresso material e espiritual de cada pessoa e dos povos, com a perspectiva de vida eterna e, portanto, do valor infinito de cada ser humano.

Em sua encíclica Caritas in veritate diz, recorrendo ao ensino de seus antecessores, que o desenvolvimento é uma responsta responsável e livre a um chamado de Deus, por tando não podemos nos basiar numa simples deliberação humana, senão no que está escrito em um plano que nos precede. Amor e a Verdade são os conselheiros indicando o que é bom e em que conciste nossa felicidade, apontando assim o caminho para o verdadeiro desenvolvimento. (CV 47-49)

De acordo com Bento XVI, a pessoa atuando segundo sua reta consciência e responsabilidade para com o bem comum é a que deve assumir primeiro lugar o dever do desenvolvimento, e não as forças automáticas e impessoais, quer das leis de mercado ou de políticas internacional.

Nesse sentido, advertiu contra a ideologia tecnocrática que confia todo o processo de desenvolvimento unicamente a técnica, deixando-o sem orientação. Também se mostra contrario ao modelo de desenvolvimento dos povos tratado como um problema de engenharia financeira, a abertura dos mercados, a eliminação de tarifas, o investimento na produção, e reformas institucionais, em última análise, como uma questão puramente técnica.
O Papa adverte que quando predomina a concepção da técnica como algo absoluto, se produz uma confusão entre os fins e os meios: o empresario considera como único critério para a ação o máximo benefício para a produção; o político, a consolidação do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas.

Sob os meandros do econômico, financeiro e político permanecem frequentemente incompreensões, contrariedades e injustiças. Enquanto os pobres do mundo continuam batendo às portas da opulencia, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir as batidas a sua porta, devido a uma consciência incapaz de reconhecer o humano, lamenta o Papa. (CV27)

“Na atualidade, diz Bento XVI, o problema do desenvolvimento está intimamente ligado ao progresso tecnológico e suas deslumbrantes aplicações no campo biológico.

Adverte neste sentido que quando o único critério da verdade é a eficiência e a utilidade, o desenvolvimento acaba automaticamente negado. A centralidade da pessoa implica a necessidade de respeitar a vida. Para Bento XVI, a abertura à vida está no centro do verdadeiro desenvolvimento.

Sobre esta questão, alerta contra formas de controle demográfico, a disseminação de contracepção, do aborto e da eutanásia com legislações contrária a vida e que vem difundindo uma mentalidade anti-natalidade. (CV 28, 43, 44)

Em muitos discursos a líderes políticos e religiosos, o Papa ressalta, entre as condições necessárias para o desenvolvimento integral, o respeito ao direito primario à vida de cada ser humano, a defesa de sua dignidade, a liberdade religiosa, o acesso universal à água e o alimento, a busca do objetivo prioritario de acesso ao trabalho, uma maior protecção ambiental e um aumento das ajuda ao desenvolvimento.

Ele também sugere algumas medidas concretas que favoreçam o desenvolvimento como o acesso aos serviços de saúde, a gestão adequada dos crescentes fluxos migratórios, governos capazes de enfrentar os desafios do mundo de hoje, o respeito aos direitos dos trabalhadores e aos direitos fundamental do homem, uma interação entre as diferentes áreas conhecimento humano (inspirada pelo amor e acompanhado de ação) e de solidariedade com as formas tradicionais do Estado social.

Olhar as coisas de um outro ponto de vista
Em conclusão, nem o Papa nem a Igreja são economistas nem tem um programa econômico ou respostas técnicas para a crise econômica. Como explica o Papa no livro-entrevista “Luz do Mundo”, com o escritor alemão Peter Seewald, a Igreja “não dá respostas para todos os problemas. Quer ser um passo a frente para olhar as coisas de um outro ponto de vista, que não seja só a viabilidade e o sucesso, mas de um ponto de vista segundo o qual exite uma normatividade do amor para o próximo que se orienta na vontade de Deus e não somente para os nossos desejos. Neste sentido, deveria dar-se o impulso para que realmente tenha lugar uma transformação das consciencias”