"Não se trata de Dilma ou de Aécio, se trata de posturas políticas, porque esse é o problema do Brasil", avaliou o economista
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“Não se trata de Dilma ou de Aécio, se trata de posturas políticas, porque esse é o problema do Brasil”, avaliou o economista

O início de um processo que pode resultar no impeachment da presidente Dilma Roussef, prisões de políticos e empresários envolvidos em escândalos de corrupção, juros e preços em alta, inadimplência crescente. O final de ano do brasileiros não é dos mais animadores e as perspectivas para 2016 não são otimistas. Conforme o economista, Edmundo Pozes, o primeiro semestre do próximo ano deverá encarar uma forte recessão, com possibilidades mínimas para melhoria, a partir do segundo semestre. Segundo ele, as expectativas de aquecimento na economia nas festas de fim de ano foram frustadas, com o apontamento de que boa parte dos 13º salários será destinada ao pagamento de dívidas.

No cenário político, o pós-doutor em Economia avaliou que o afastamento da presidente não é a melhor opção para o país, que já está fragilizado e sem muita confiança na classe política. Acredita que até o final do mandato de Dilma, as mudanças não serão significativas, mas também reconheceu que a situação não seria diferente caso Aécio Neves chegasse à presidência da República.

Para ele, a principal mudança deve partir do eleitorado, que vende seu voto e exige que os seus eleitos sejam honestos. “Temos que votar em pessoas preparadas, não em partido A ou B, mas em pessoas que não irão prejudicar nossa economia, desviar recursos. Esses têm que ser afastados. Temos que votar em pessoas que não tenham um passado criminoso, que possam dar uma vida melhor para nós.”, apontou.

Uma série de pesquisas e enquetes realizadas apontam que os trabalhadores irão utilizar o 13º salário para o pagamento de dívidas. Ou seja, a economia não irá se movimentar de forma tão significativa, pois o dinheiro não deverá circular como ocorre naturalmente nessa época do ano?

O 1º governo da presidente Dilma, incentivou muito as pessoas a gastar e ela deu subsídios à empresas e alguns setores da economia, quando houve uma aumento nas vendas. As pessoas acabaram se endividando e agora têm que paga-las, porque senão, elas não poderão comprar nada. A sociedade capitalista é assim.

Agora, o que me espanta são os preços. Estava no supermercado há alguns dias e vi o preço da laranja de umbigo, R$ 14,80 o quilo, eu fiquei assustado, porque em cidades de Santa Catarina, onde passo alguns dias, a laranja estava custando R$ 2,04 o quilo. Outros produtos, como sucos, batata, tomate, também com preços assustadores. Eu vejo a nossa região muito pisada, as pessoas ganham um salário muito baixo e os preços estão lá em cima. Há uns 3 anos eu fiz uma pesquisa do porquê os preços são mais altos aqui, comparado à outros lugares. Um dos fatores é de que os compradores não negociam com os fornecedores. Eles simplesmente aceitam os preços e repassam ao consumidor, não tem discussão de preço, porque o fornecedor alega um monte de coisas, que a nossa região é longe e por isso é mais caro. Não acho que seja assim.

Por exemplo, esse aumento nos preços dos combustíveis, aqui em Palmas você encontra a R$ 3,64 mais ou menos, mas quando estou em viagem, abasteço em União da Vitória a R$ 3,29, R$ 3,39. Então, nós estamos com R$ 0,30 a mais por litro de gasolina e parece que o pessoal que aumentou os combustíveis deixou lá. Então tudo está caro, supermercado, combustíveis, e com isso ficamos pensando como as pessoas irão realizar as suas festas de final de ano, uma época de reunir a família, o congraçamento, como irá fazer? Com que dinheiro? Como apontam as pesquisas, grande parte do dinheiro vai para as contas velhas, sobrando muito pouco para as festividades.

E o cenário político e econômico do país?

Esperamos que a chegada de um novo ano renove as esperanças dos brasileiros. Nós vemos o cenário nacional, com prisões de senador, deputados e senadores envolvidos na operação Lava Jato, uma vergonha para o Brasil. Por um lado é bom, porque as coisas estão aparecendo, o juiz Sérgio Moro é um homem corajoso, já indiciou políticos e funcionários da Petrobras e está procurando mais. A política do Brasil está desacreditada, a presidente passa por uma situação ruim, espero que ela sobreviva a isso tudo, porque eu acho temerário fazer uma mudança de presidente agora, não resultaria em nada. Os presidentes da Câmara e do Senado também estão envolvidos nos escândalos de corrupção. Então não vemos muitas perspectivas nesses mandatos.

A situação econômica do mundo está melhorando, mas o Brasil está sofrendo o golpe ainda. Desemprego na casa dos 10%, Taxa Selic em 14,25%, os bancos cada vez mais ricos, com lucros bilionários, e a indústria, as empresas, por exemplo, durante um evento para discussão da economia e processos de gestão com alunos do IFPR e empresários do município, muitos apontaram dificuldades. O mercado está ruim e as empresas encontram dificuldades para honrar seus compromissos.

Outro fator é o encaixe propulsório, em que o Governo tira o dinheiro que foi depositado a visto nos bancos, coloca uma taxa de juros muito grande e segura para ele. Esse dinheiro não pode ser emprestado. Falta dinheiro no mercado e o Brasil faz justamente o contrário do que fazem os Estados Unidos, Japão e outros países, onde a taxa de juro é baixíssima, para que pessoas e empresas possam ter acesso a esses recursos e fazer a economia crescer. A inadimplência está muito alta, porque os juros estão muitos altos, e aí aumentam-se os juros porque a inadimplência está alta e isso acontece sucessivamente.

O Governo coloca a culpa na inflação, o que não é verdade. Já foi comprovado que chega-se a um ponto em que não adianta mais aumentr a taxa de juros, porque não vai influenciar em nada a inflação. É só uma maneira de captar dinheiro no exterior e colocar dólares aqui dentro para alguns investidores se beneficiarem.

O senhor fala em bancos com lucros astronômicos e nós temos um banqueiro no Ministério da Fazenda, mesmo com uma rejeição muito forte de aliados da presidente, ele segue na pasta. O que se pode dizer sobre a atuação dele e da influência dos bancos na economia do país?

Na verdade, quem quer derrubar o Levy quer colocar outro banqueiro, que já esteve no governo Fernando Henrique, no lugar dele. Essa posição, mostra que o mercado internacional quer um banqueiro para poder dar credibilidade aos negócios do Brasil, é isso que eles esperam. Sempre vai ter alguém que vai ter esses laços com os bancos. Infelizmente, no atual momento da economia, não é possível afastar-se deles. É um mal que tem que andar junto conosco. Se ele cair, vai ser substituído por outro de igual calibre.

Diante dessa situação, o que esperar para a economia em 2016?

Eu acho que 2015, apesar de todas essas dificuldades, as pessoas irão se endividar um pouquinho para essa passagem de final de ano, para trazer um pouco de alegria para as suas famílias. Porém, uma coisa que notamos, inclusive estudantes do IFPR estão encontrando dificuldades nesse ponto, é a falta de oportunidades de emprego. Conversando com empresários, ninguém mais tem vagas. Acredito que dezembro transcorra com certa normalidade, mas uma previsão um pouco sombria para 2016 é que janeiro, fevereiro e março serão meses de absoluta recessão e aumento de preços.

Uma perspectiva de melhoras, se a Dilma conseguir dar uma volta por cima, sair desse enrosco com o Congresso, se houver uma mudança nesses pontos, pode ser que no 2º semestre do próximo ano, as coisas comecem a melhorar. O mundo, que já passou por essa recessão que o Brasil está passando, já está melhorando, as coisas estão voltando ao normal. Outro problema, é que houve uma diminuição de compras da China, que crescia 10%, agora está crescendo “só” 7%. Até a COSIPA – Companhia Siderúrgica Paulista fechou, porque o aço que ela produzia não tem mais mercado. A China, que era compradora, passou a ser exportadora.

Então o nosso primeiro semestre, pelo menos, será de recessão, taxas de juros altas e as empresas lutando para se manterem vivas no mercado. E a gente vê nos empresários, os altos impostos que eles têm que pagar, não dá para culpa-los.

Professor, existe uma ligação muito ampla entre política e economia. Nós vemos que qualquer acontecimento na política nacional, mexe também com o mercado financeiro. Qual é essa relação? Como pode a crise política refletir na crise econômica do país?

O governo tem um orçamento trilionário, R$ 1,2 trilhão ao ano, e o Brasil sobrevive em cima desse orçamento. Existe uma coisa chamada economia política, que define para onde o governo irá destinar os seus recursos.

Hoje, a Câmara dos Deputados e o Senado estão com um controle muito grande, o governo enfraqueceu, e o Congresso criou muita forças, são eles que estão dizendo onde o dinheiro será aplicado, em qual Estado, em qual região. Então, o controle não está mais com o governo federal.

A relação é essa: a política vai dizer onde vão ser colocados esses bilhões de reais, e o governo precisa agradar os seus aliados e opositores para votarem a favor dos projetos de seu interesse.

Nessa semana, a presidente assinou um decreto determinando um corte de gastos estrondoso em várias áreas, que vão desde o pagamento de água e luz até o fornecimento de bolsas de estudos para estudantes e pesquisadores que estão no exterior. O que esperar dessa decisão, mesmo que seja temporária, mas em que isso poderá resultar?

Pois é, como você falou, estudantes que estão no exterior, estudando para trazer mais tecnologia e conhecimento para o Brasil, talvez tenham até que voltar, porque sem dinheiro eles não podem ficar lá fora. Esse tipo de corte, água, luz, passagens de avião, combustíveis, é uma forma de pressionar o Congresso, porque eles precisam aprovar algumas metas fiscais, senão a Lei de Responsabilidade Fiscal pode recair sobre a presidente, e gera uma série de embates, como ocorreu no caso das “pedaladas”. Essa situação é muito ruim.

Existe uma teoria que trata sobre isso, teoria Keynesiana, que quando existe uma situação difícil na economia, o governo tem que interceder, mas, tem que se entender que a função do governo é administrar o dinheiro, mas o dono desse dinheiro é o povo. O que foi cobrado de impostos das empresas e das pessoas deve ser aplicado em mais empregos, mais investimentos, mais produção. Há pouco mais de 6 meses atrás o Brasil estava com uma taxa de desemprego de 5%, enquanto que na Espanha essa taxa era de 20% em geral e em 50% entre os jovens. Então, se não houver investimentos do Governo, mais empresas vão fechar, mais pessoas vão para rua e a situação só irá piorar.

Professor, eu já lhe questionei sobre esse assunto e o senhor já declarou que acredita que a presidente Dilma conseguirá concluir o seu mandato, se sair, será por um processo de impeachment, mas, acreditando que ela chegue ao final, o que podemos esperar na situação política e econômica do Brasil até 2018?

Quem não viveu a ditadura militar, não entenderá o que eu vou falar. Houve prisões arbitrárias, agressões, assassinatos em massa, a repressão era muito grande. Eu estudava no Machenzie em São Paulo, uma noite eu estava saindo da faculdade e tive que correr da polícia, eu nem sabia o porquê, eu nunca fiz nada contra o governo e tinha uns caras correndo atrás de mim com porrete na mão e escudo. O estudante apanhava, porque era estudante, você não podia falar nada dentro da sala de aula, pois haviam delatores, e a Dilma lutou contra tudo isso.

O Brasil passou 21 anos sob uma ditadura militar, ferrenha, cerrada e mesmo assim, havia corrupção. E um grupo de pessoas pegou em armas para lutar contra o governo. Então, eu acredito que por esse passado dela, eu não acredito que ela vá ceder, ela vai até o final, a não ser que haja um processo legal, que até hoje, nunca acharam nada contra ela. Contra outros sim, estão pegando firme, estão indo atrás, mas a Dilma seguirá até o fim.

A impressão que dá, é que até 2018, esse será um governo murcho, sem avanço, a não ser que ocorram mudanças significativas no cenário mundial, que volte a puxar nossas commodities, o petróleo, aço, minérios, grãos, que se voltarem a crescer, o Brasil crescerá também. Mas, enquanto o mercado internacional não comprar nossos produtos, nós vamos permanecer nesse marasmo e vamos sofrer até o final do mandato dela. Entretanto, eu também não acredito que o Aécio Neves poderia mudar. Não se trata de Dilma ou de Aécio, se trata de posturas políticas, porque esse é o problema do Brasil. Essa corrupção, em que nós vendemos o nosso voto, o da nossa família, como vamos querer que lá em cima as pessoas sejam corretas e tanham ética? Tem que começar aqui debaixo, votar em pessoas preparadas, não em partido A ou B, mas em pessoas que a gente sabe que não irão prejudicar nossa economia, desviar recursos. Esses têm que ser afastados. Temos que votar em pessaos que não tenham um passado criminoso, que possam dar uma vida melhor para nós.

Passando para um âmbito local, nas últimas semanas esteve me discussão na Câmara de Vereadores a inclusão do empreendedorismo na grade curricular das escolas municipais de Palmas. Desde a sua chegada no município, o senhor é um dos maiores incentivadores sobre essa temática, qual a sua perspectiva a partir de agora, com o empreendedorismo sendo debatido em sala de aula, desde as séries iniciais?

Eu forneci o material de uma pesquisa que eu realizei para o grupo que elaborou essa proposta, pessoas muito interessadas nesse assunto. Há cerca de três anos, sofri um acidente que me impossibilitou de trabalhar por um certo período, e nesse tempo eu realizei essa pesquisa aqui em Palmas e em Pomerode (SC), fazendo um comparativo entre ambas. Eu fui no IBGE e coletei algumas informações, por exemplo, Pomerode, uma cidade de 28 mil habitantes, comparada com Palmas, ela tem um PIB (Produto Interno Bruto) muito maior, setor industrial mais forte, entre outros aspectos. Mas, como é que pode uma cidadezinha daquela ser mais rica e desenvolvida que a nossa Palmas? Então comecei essa pesquisa.

Lá, eu percebi que nas séries finais do ensino fundamental e depois, nos três anos do ensino médio, eles tinham essa matéria de empreendedorismo. Eu fui nas escolas, entrevistei dez alunos de cada série. Perguntava o nome, idade, o que é empreenderdorismo e qual a profissão que ela pretendia seguir. Fiz o mesmo em Palmas e comparei os resultados. Foi percebido que lá, os governos municipal e estadual forçam, no bom sentido, os alunos a estudarem o empreendedorismo. No final de cada ano eles fazem um grande congresso, onde os alunos apresentam os seus trabalhos e são apoiados pelo empresariado.

Em Palmas, muitos professores que participaram da pesquisa não sabiam o que era empreendedorismo. Os alunos também não sabiam nada sobre o assunto. Eu fiquei muito assustado. Eles são culpados? Não. Porque precisa ter na grade curricular. A minha geração, eu que nascia em Blumenau, onde estão grandes empresas do setor têxtil, era treinada para, no máximo, ser gerente de uma dessas empresas. Hoje, essas vagas não existem mais. O Brasil precisa lutar, junto com o Sebrae, pensando em outra coisa, sermos empresários, empreendedores, inovadores, para criar empresas menores, que se adaptem ao mercado, mais flexíveis.