por Dom José Anotnio Peruzzo

 

Em quase todos os ambientes que frequento sou indagado sobre o sentido da visita “ad Limina” que fiz ao Vaticano e ao Papa. Fotos e reportagens deram amplitude à viagem que fiz a Roma. As perguntas versam primeiramente sobre o encontro pessoal com Bento XVI. Depois as curiosidades são associadas a outros eventos da mesma visita. Enfim vem a pergunta final: “o que é ‘visita ad Limina? A explicação tenderá ao sentido eclesial da mesma; ou seja, destacar-se-á o caráter de identidade de Igreja e de comunidade de fé que confere sentido às tais visitas “ad Limina”.

 

Comecemos pelo final, pelo que é esta vista. Em termos práticos, todos os bispos diocesanos, a cada cinco anos, têm o compromisso de apresentar ao Papa um relatório, o quanto possível completo, sobre a situação da Diocese que lhe é confiada. Por isso mesmo, para além do encontro com o Pontífice, os bispos do Paraná frequentaram os mais diversos departamentos da administração central da Igreja. Foram encontros marcados de muita irmandade: perguntas, orientações, preocupações e sugestões tonificaram os encontros. Falamos e ouvimos.

 

Entretanto, foi muito menos um evento de sentido administrativo ou protocolar. Há uma dimensão pastoral de fundo. Em Roma estas visitas são interpretadas como a ocasião de enriquecimento de experiências e informações que se levam ao bispo de Roma acerca da realidade evangelizadora da Igreja em todo o mundo. Elas oferecem preciosos aportes para que Bento XVI tenha conhecimentos e contactos com todas as condições humanas e culturais do mundo. Isso foi o que ouvimos do embaixador do Brasil junto à Santa Sé. Antes ele chefiava a prestigiada embaixada brasileira na Alemanha. Foi para o Vaticano porque o menor estado do mundo é um dos que dispõe das melhores informações sobre a realidade social e cultural em todo o mundo.

 

Mas é evidente que os momentos mais significativos foram os encontros com o Papa. Houve um primeiro, de caráter mais formal. Estávamos todos os bispos do Paraná. Nós o aguardávamos na sala de audiências. Dom Moacir, arcebispo de Curitiba, falou em nome de todos. Em seguida foi ele a nos falar. Suas palavras, embora dirigidas aos presentes, eram endereçadas a toda Igreja do Brasil. Recomendou-nos atenção, apreço e denodo pastoral em favor das vocações à vida religiosa. Realmente, é inquietante o declínio numérico das vocações à vida religiosa no sul do Brasil.

 

Evidentemente, um encontro formal tem ressonâncias formais, ou melhor, destaca mais o conteúdo que as relações. A expectativa maior seria pelo encontro pessoal. Aquele deveria ser muito mais evocativo. E foi realmente assim. Uma semana após o primeiro, então em um grupo de oito bispos, estivemos com ele. Não se tratava de discursos ou de informações. Foi algo como acontece na sala de visitas de uma casa. Sentados em forma quase circular, ele nos perguntava sobre as dioceses, sobre as realizações, sobre as dificuldades e desafios. Parecia faltar somente o chimarrão, tão familiar que era a conversa. Durou aproximadamente uma hora e dez minutos. É um homem extremamente afável e educado. Seu modo de falar irradia paz, afeição. Parece um “Vovô” muito afetuoso.

 

O que disse Bento XVI para nossa Diocese? Eu lhe referi sobre o grande número de catequistas (7.123). Falei também dos programas de educação da fé que se espraiam pela Diocese. Também lhe mencionei a Pastoral Familiar. Não ficaram de fora os programas de formação para a Pastoral de Juventude. Dei-lhe conhecimento sobre as treze ordenações sacerdotais que temos no sudoeste entre agosto/2010 e março/2011. Claro, temos caminhos pedregosos: o crescente consumo de drogas entre nossos jovens; as muitas rupturas familiares; os católicos distantes de suas comunidades; o afrouxamento ético… Enfim, há questões de cultura e de estrutura que reclamam de nós coragem e intrepidez. Penso que nossos modos de evangelizar já não correspondem aos tempos atuais. Precisamos revalorizar a Leitura Orante da Escritura e programas consistentes de iniciação cristã.

 

Mas… e o sentido teológico da visita? Evangelizar não transmitir ideias. É comunicar experiências e vivências. E Jesus Cristo quis unidade para sua Igreja. A ida a Roma não foi cortesia ao Papa. Fomos às tumbas de Pedro e de Paulo. Junto a elas celebramos a Eucaristia. Era como se superássemos as distâncias no tempo e celebrássemos a mesma fé em Jesus, ontem e hoje. Somos muito próximos, ainda que tempo e espaço nos distingam. Aliás, vale aqui recordar Gl 1,18: “Em seguida, após três anos, subi a Jerusalém para avistar-me com Cefas (Pedro), e fiquei com ele quinze dias”. Estas visitas são características da Igreja desde os seus primeiros dias.

 

D. José Antonio Peruzzo