por Ivan Cezar Fochzato

 

Hoje 20 de Novembro, é o Dia da Consciência Negra. Em Palmas, sul do Paraná, três comunidades afro descendentes celebram a data que foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695, tido como o último dos lideres dos Quilombos dos Palmares. No município estão presentes três comunidades quilombolas: Adelaide Maria Trindade Batista, no Bairro São Sebastião do Rocio, com 170 famílias; Castorina Maria da Conceição, no Bairro Fortunato, com 40 famílias e Tobias Ferreira, na localidade da Pitanga com outras 30 famílias.As famílias chegaram ao território do hoje município de Palmas por entre os anos de 1836 e 1839.Várias atividades estão sendo desenvolvidas na Escola Estadual Maria Joana Ferreira, na comunidade quilombola no Bairro São Sebastião do Rocio para celebrar a data.

 MAPA DA LOCALIZAÇÃO DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS DE PALMAS

 

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Uma das lideranças quilombolas de Palmas e membro da federação paranaense das comunidades quilobolas do estado do Paraná, Alcione Ferreira, falou ao Portal RBJ sobre o significado do dia 20 de Novembro para os afrodescendentes, bem como da luta pelos direitos, inclusive em Palmas, em torno do reconhecimento e demarcação das terras pertencentes aos afro-descendentes. Clique  e ouça

 

 

COMUNIDADE QUILOMBOLA Adelaide Maria da Trindade Batista

São Sebastião do Rocio, hoje Adelaide Maria da Trindade Batista, o quilombo leva o nome da matriarca fundadora e sua primeira líder em uma homenagem de seus descendentes; o antigo nome perdera sua razão de ser quando se estendeu para o bairro que a prefeitura, construiu em suas terras, quando a cidade chegou até elas.. De acordo com Maria Arlete Ferreira da Silva e Auri Silveira dos Santos, descendentes dos primeiros negros que habitaram a região, a comunidade é formada pelas famílias Batista, Ferreira, Lima, Silva, Silveira e Santos. A comunidade acredita que uma parte dos negros que vivem nesse quilombo veio com a bandeira de José Ferreira dos Santos e outra, com a bandeira de Pedro Dias Cortes, para povoamento dos campos de Palmas. Adelaide Maria da Trindade Batista chegou do Rio Grande do Sul com as primeiras expedições que chegaram se instalando na região onde hoje é o município de Palmas entre 1836 e 1839, trazendo consigo seus símbolos e os santos que são venerados até a atualidade.

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Entre os ancestrais dos membros da comunidade estão Benedita, (tia Dita), que morreu queimada e Salomé, que foi escravizada e tinha as marcas no corpo: a orelha rasgada, a mão queimada, pois era obrigada a levar a brasa, na mão para que o seu senhor acender o cigarro de palha, e muitas das vezes, era obrigada a segurar a brasa até que ele fizesse o cigarro para depois acendê-lo. Maria Arlete conta que seu avô José Ferreira lutou na Guerra do Paraguai e destaca: “O meu padrasto, quando a gente tinha as “surpresas”, ele carregava a espingarda que foi do meu avô José Ferreira para dar as salvas de tiro na nossa casa”.
Adelaide Maria da Trindade Batista, a matriarca, doou o terreno para a construção da igrejinha católica, hoje oficialmente reconhecida como Capela pela Diocese. Quando a matriarca faleceu, assumiram respectivamente a liderança do bairro (Quilombo) e da igrejinha, Maria Joana Batista da Silva e Maria Adelaide Ferreira da Silva, nora da primeira Adelaide e assim vem acontecendo a sucessão na comunidade. Atualmente a liderança do Quilombo (bairro) e da Capela é Maria Arlete Ferreira da Silva. Esta líder está sempre contando a história da luta dos ancestrais para seus filhos e netos, para que não se perca o conhecimento acumulado de geração em geração, pois como ela diz: “Muda-se a forma de viver, mas não se pode perder a tradição”. Cultura antiga: artesanato, a catira, carnaval, boi de mamão, jogo de escopa e na quaresma, a Matraca para a Recomenda das Almas, e a festa de São Sebastião do Rocio. Eram feitos três bailes: na sexta-feira era dos brancos, no sábado só dos pretos e no domingo todos dançavam. “Os bailes, não acontecem mais, pois hoje vieram para o bairro de São Sebastião do Rocio, outras famílias de várias etnias, que não conhecem e não valorizam a tradição negra”. – diz Maria Arlete. Quanto às terras, ela fala: “Atualmente, a realidade é que muitos negros se foram embora, pois não tinham como sobreviver depois que o prefeito tomou as terras do quilombo e as vendeu para famílias de descendentes de imigrantes, pobres eles também, por um preço simbólico, para não dizer doação.Sem ter onde plantar e sem infra-estrutura urbana, empregos, a solução para muitos foi ir embora em busca de melhores condições de vida para família”. A comunidade festeja São Sebastião no dia 20 de janeiro, conserva a cultura da dança e da música, planta mandioca, feijão, milho, abóbora e batata.

 

CASTORINA MARIA DA CONCEIÇÃO – (FORTUNATO)

 

Esta comunidade, que já foi chamada de Fortunato, recebeu o nome atual em homenagem à matriarca sua fundadora Castorina Maria da Conceição. “Seu” Valdomiro Fortunato Nunes, 70 anos, neto de Castorina Maria, relata que ela e sua irmã, Maria Adelaide da Trindade Batista, que fundou a comunidade do Rocio e que hoje tem o seu nome, chegaram escravizadas nas primeiras expedições para povoamento de Palmas, 1836 a 1839. Contam que os negros que integraram as Bandeiras fizeram parte desse quilombo. Valdomiro diz que os sobrenomes das famílias do bairro são Nunes e Batista, pois Fortunato era um apelido que mais tarde foi assumido como sobrenome. Tanto Valdomiro da Comunidade Castorina Maria da Conceição (Fortunato) como Maria Arlete da Comunidade de Adelaide Maria da Trindade Batista (Rocio), contam o que ouviram dos mais velhos que o Rio Caldeira servia de divisa, de limites: “do lado de cá”, conta, “ficaram os negros e do lado de lá, os fazendeiros brancos”.
Valdomiro, diz que alcançou o tempo em que os negros tocavam as tropas de porcos dos fazendeiros locais para as fazendas de União da Vitória. A viagem durava uma semana. Paravam, alimentavam os animais, dormiam em ronda e na manhã seguinte continuavam a viagem: Levavam um cargueiro de alimentação (um cavalo com as bruacas) com alimento para os homens e os animais – as bruacas eram feitas por eles mesmos em couro cru. “Nois saía dali – aponta – pra diante do Chopim, de carrocinha, puxando alimento; um tio meu foi daqui pro Norte do Paraná levando uma tropa de porco de a pé”.

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Ermínio Nunes Fortunato, 50 anos, diz que ainda alcançou tropeada de vaca dos negros. “Aqui era tudo aberto, não tinha cerca, era bonito de se ver. A gente era peãozinho e quando escutava os gritos dos vaqueiros, corria pra dentro de casa, às vezes vinha, vaca, boi brabo e aí ficava olhando da janela”. Ermínio relata que os fazendeiros tinham dinheiro e fechavam as terras das quais se apossavam com taipas de pedra feitas pelos negros, enquanto estes que não tinham dinheiro deixavam tudo aberto, pois cada um sabia qual era o seu pedaço. “Esse direito não foi respeitado pelos que aqui chegaram depois, e principalmente pela prefeitura municipal”, conclui. Plantam milho, feijão e abóbora para subsistência e criam animais. A padroeira da comunidade é Nossa Senhora da Luz. Festa: Romaria de São Gonçalo. Destacam ainda, na área cultural a dança e a música do Grupo de Dança Afro – “Maria Morena”.

 

 

TOBIAS FERREIRA – (LAGOÃO)

 

Da mesma forma como as duas outras comunidades de Palmas, a Comunidade Negra Tradicional Tobias Ferreira, conhecida anteriormente como Lagoão, teve o seu nome mudado em homenagem ao patriarca Tobias Ferreira. Foi formada pelos negros escravizados da fazenda Pitanga. Dona Juvina Batista Ferreira, 78 anos, casada com Mário Ferreira, filho de Tobias relata que seu sogro, chegara à região nas primeiras expedições de 1836 e morreu com mais de cem anos. Na lembrança da comunidade estão alguns nomes de pessoas que foram escravizadas na fazenda Pitanga: Ernesto, Benedito, Chica, Braulina das Neves e Efigênio, entre outros. Auri de Jesus Ferreira, filho de Dona Jovina conheceu negros com mais de cem anos que haviam sido escravizados e que contavam dos sofrimentos que passaram nas fazendas, desde orelhas pregadas (uma história recorrente nos Campos Gerais) a surras e outros castigos. Já livres, depois da venda da fazenda Pitanga para novos proprietários, houve muita violência por parte destes contra os negros e muitos, sem apoio das autoridades policiais, saíram de suas terras por não suportarem as perseguições e pressões para que abandonassem o local onde viveram quase dois séculos. Os que resistiram e estão na comunidade até hoje têm orgulho de sua história de resistência e de luta. Expressões culturais: a dança de São Gonçalo que sempre acontece sem dia marcado no calendário permaneceu no decorrer dos anos; a capoeira também está presente nas novas gerações dos descendentes de Tobias Ferreira. Outro descendente, Juarez de Jesus Ferreira, relata que umbanda, candomblé e catolicismo fazem parte da espiritualidade da comunidade que agrega também os evangélicos. “Essa espiritualidade muitas das vezes está intercalada nas atividades culturais. Nossa preocupação é preservar a cultura e não deixar cair, não deixar sumir nossa história, mas fazer a nova geração continuar as danças e o uso de remédios de ervas que as vezes demoram até 48 horas para fazer efeito, mas funcionam”, diz Juarez.

 

com registros da Federação Paranaense das Comunidades Quilombolas