Além das apresentações das propostas por parte dos candidatos, uma outra importante iniciativa do debate promovido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entre os concorrentes à prefeitura de Palmas foi a transmissão simultânea em Libras (Língua Brasileira de Sinais).

O trabalho foi desempenhado pela tradutora e intérprete Janaina Jassiara Kamphorst, que considerou de fundamental importância a inclusão dos surdos no debate, para que eles, que também têm o direito do voto, possam aprofundar seus conhecimentos sobre os candidatos e exercer a sua cidadania de maneira efetiva.

Única profissional a atuar na rede estadual de ensino em Palmas, Kamphorst destaca que existe uma demanda expressiva por mais intérpretes para o apoio aos estudantes.

Conforme ela, a sua formação no magistério foi o ponto inicial para seu ingresso na interpretação e tradução da Libras. Para quem tem interesse em conhecer essa língua, a profissional salienta que é necessário muito estudo e dedicação, uma vez que a língua está sempre em evolução. “Além disso, pontos fundamentais são compreender o surdo, ter clareza, atender as necessidades dele e ter o dom de captar a mensagem e traduzi-la da forma mais clara possível”, considerou. Ouça a entrevista no player abaixo:

Aqui, você conta com a transcrição do material:

Janaina Kamphorst: O meu interesse pela Língua de Sinais veio ao longo do tempo, durante minha formação no Magistério. Lá, tivemos várias palestras, vários encontros com pessoas surdas e ali surgiu o real interesse. Foi encaminhado pela professora Gerci, pela professora Olivete, toda a questão de cursos e trabalhos. Posteriormente, prestei a banca, tive o êxito de passar e desde então eu atuo, faço cursos, sempre me profissionalizando e participando de vários eventos, auxiliando no que for necessário para ter essa parte de inclusão e melhor entendimento da pessoa surda do nosso município.

RBJ – Você citou a questão de banca, como funciona o estudo da Língua Brasileira de Sinais?

Janaina Kamphorst: Nós temos várias modalidades. Você pode fazer cursos por meio da FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) ou cursos de modo particular, tem vários cursos via Internet e presenciais. A parte da banca funciona assim: você faz uma inscrição, nós temos duas bancas, a estadual e a federal. A estadual é do CAS (Centro de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas Surdas), onde temos duas regionais – Guarapuava e Curitiba – e a federal, que é da FENEIS. Eu, graças a Deus, passei nas duas. A banca funciona do seguinte modo: você se inscreve, vai até o local, nesta banca nós temos três surdos e três intérpretes, que vão avaliar a sua postura ética, profissional e a fluência na Língua de Sinais.

RBJ – O que percebemos é que, além do gestual, há também a expressão facial que acaba influenciando na forma de passar a mensagem.

Janaina Kamphorst: Exatamente. Quando você faz a parte da interpretação, são três pilares: O espaço visual, que nós colocamos sempre como um quadrado em torno do nosso corpo para melhor sinalização, a parte de expressão facial e a sinalização em si, do conhecimento das palavras, da parte gramatical e também observando todo o contexto.

RBJ – Nós fizemos há algum tempo um levantamento a respeito da comunidade surda de Palmas, que abrange um número expressivo de pessoas. Você teria ideia da quantidade de profissionais habilitados para atuar na interpretação de Libras no município?

Janaina Kamphorst: Para ser bem sincera, atualmente eu não tenho muito contato. Sei que nós temos professores e intérpretes formados. Uma pessoa de grande renome nessa área é a professora Melania Dalla Costa, que atua no Instituto Federal do Paraná. Mas outros profissionais, eu não tenho muito contato, então não saberia dizer a gama em que estamos. Se for colocar na atuação na rede estadual de ensino, somente eu atuo, salvo engano.

RBJ – Na rede estadual de ensino somente você atua na interpretação de Libras?

Janaina Kamphorst: Com a demanda que foi encaminhada aqui para Palmas, quando houve o chamamento dos intérpretes, apenas eu me prontifiquei. Tivemos outros inscritos, mas eles acabaram assumindo a função em outros municípios.

RBJ – Na rede estadual, a demanda exigiria um número maior de intérpretes?

Janaina Kamphorst: Exigiria. Nós estávamos fazendo um levantamento e precisaríamos de, pelo menos, três intérpretes para o próximo ano. Para 2020, dois supririam, mas para o próximo ano, seriam necessários três.

RBJ – Você participou do debate entre os candidatos a prefeitura de Palmas. Como você avalia esse momento, inclusive voluntariamente estando aqui, como é estar prestando esse serviço para a comunidade surda em um momento tão importante que é o momento do voto?

Janaina Kamphorst: Eu acho de fundamental importância essa participação, tanto que ao longo do período de campanha eu já fiz algumas interpretações em Palmas e General Carneiro, e o que sinto, após esse debate, é que gera um esclarecimento maior para os nossos surdos, pois todos são eleitores e também precisam saber o que se passa, quais são os projetos, as propostas de cada candidato. Assim eles vão conseguir eleger um candidato da melhor forma possível no dia das eleições.

RBJ – Para quem acompanhou nossa entrevista, que tenha despertado o interesse em conhecer mais sobre a Língua Brasileira de Sinais, como pode proceder?

Janaina Kamphorst: Eu sempre me coloco à disposição e o que eu coloco é que para aprender a Língua de Sinais é necessário muito interesse, muito estudo, muita dedicação, porque ela é uma língua que sempre evolui, de um ano para outro ela evolui muito rápido. Então você sempre tem que estar se atualizando, fazendo cursos, e um ponto fundamental é compreender o surdo, ter clareza para trabalhar com o surdo, atender a necessidade dele e, outro ponto importantíssimo, é ter o dom, você precisa captar a mensagem na Língua Portuguesa e traduzi-la para a Língua de Sinais da forma mais clara possível para o surdo.