Esta é a última semana de preparação para os estudantes que prestarão as provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). No domingo, 04 de novembro, os inscritos realizam as provas de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências Humanas e suas Tecnologias e a Redação, temida por muitos dos candidatos. Para dar uma “mãozinha” aos que vão prestar a prova, o RBJ procurou um especialista, que traz algumas dicas e orientações para a redação.

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Professor Jacob dos Santos Biziak é graduado em Letras pela Universidade Estadual Paulista (2006), mestre e doutor em Estudos Literários. Foto: Reprodução/Facebook

O professor Jacob dos Santos Biziak é graduado em Letras pela Universidade Estadual Paulista (2006), mestre e doutor em Estudos Literários pela mesma instituição, além de ter atuado também na organização do Enem.

Inicialmente, ele chama atenção dos estudantes a critérios que podem zerar a redação, como a fuga total do tema. “Ao pegar a prova, o aluno terá o tema da redação em destaque. Recomendo que o aluno circule as palavras-chave do tema, palavras essas que deverão aparecer ao longo do texto”, orienta.

Outro item que pode anular a redação é o não atendimento à estrutura do texto dissertativo-argumentativo. “Ou seja, espera-se que o aluno defenda um ponto de vista e não, simplesmente, expor fatos sem se posicionar”, lembra, destacando ainda outro critério que resulta no zeramento da nota da redação que é o desrespeito aos direitos humanos. “Tudo aquilo que pode ferir a integridade do outro deve ser evitado”, avalia.

No player abaixo você confere a entrevista completa:

Abaixo você também pode ler a transcrição da entrevista:

Profº JacobÉ importante falar da modalidade dissertativa-argumentativa, não é só dissertação, é dissertação-argumentativa, porque esse é um dos critérios que podem zerar a prova. O  aluno deve ficar atento aos critérios principais que zeram a prova do Enem: primeiro critério é a fuga total do tema. Então, o aluno pega a prova e o tema vai estar destacado lá em cima no primeiro parágrafo. Eventualmente, mas é muito raro, aparece lá embaixo na prova do ENEM na folha de redação. A folha de redação é uma folha só, caso não tenha mudado, mas sempre foi uma folha só, é a primeira folha logo após a capa, para o aluno identificar fica muito fácil.

Lá em cima vão estar as instruções e o tema vai estar em negrito. O que que eu recomendo? O aluno circular as palavras-chave do tema. Em geral são três palavras-chave, mais ou menos. Essas três palavras-chave têm que aparecer ao longo de toda redação, costurando toda redação. Se a gente pegar aquele tema da ‘Persistência da Violência Contra a Mulher no Brasil’, quais seriam as palavras-chaves? Persistência, Violência, Mulher e Brasil. Então esse é o recorte. Qual é a primeira dica que eu dou, essas palavras aparecerem no primeiro parágrafo, porque o texto é curto, então desde o começo importante de conquistar o corretor em questões que está procurando.

O segundo item que pode zerar a redação é justamente fugir do gênero, que é um gênero dissertativo-argumentativo. Quer dizer se espera que o aluno defenda um ponto de vista. Então não é simplesmente expor fatos sem se posicionar. É claro que poderá fazer uma explanação muito mais complexa sobre isso, porque a gente não apresenta fatos de maneira neutra, mas o Enem ele exige que você assuma uma posição diante de uma situação problema. Então ele tem que fazer um texto, na medida do possível mais objetivo, menos subjetivo. O que é um texto subjetivo?  ‘Eu acho, eu penso, eu quero, eu acredito’, ele (o aluno) tem que tornar isso mais objetivo: ‘acredita-se, pensa-se’, na terceira pessoa, que é o mais ideal e o mais exigido.

A outra maneira que ele pode zerar é o desrespeito aos Direitos Humanos, que é uma das coisas mais polêmicas, que vira e mexe aparecem questões na mídia. A gente não pode esquecer que essa questão dos Direitos Humanos está ligada, desde 1948, à Declaração Universal, que foi ratificada lá na ONU e o Brasil ratificou essa declaração. Então tudo aquilo que pode ferir minimamente a integridade do outro, do ser humano, o aluno deve evitar. Fora outras coisas, como a comunicação com corretor, brincadeiras que a gente percebe que são nitidamente para zerar a prova, mas assim, evitar ao máximo, não escrever algo que não seja argumentativo, fugir do tema minimamente e desrespeito ao direitos humanos são as três formas mais perigosas de se zerar a prova do Enem.

RBJ – Qual seria a sua orientação para a última semana de preparação?

Profº JacobNão esquecer que a prova do Enem é corrigida segundo cinco competências, então é bom fazer a redação focando nesses cinco elementos que vão ser avaliados pelos corretores. Lembrando que a prova do Enem é corrigida duas vezes, por dois corretores diferentes, um não sabe a correção do outro, ele não sabe se a correção dele é a 1ª ou a 2ª daquele texto, a discrepância máxima que pode haver é de 100 pontos de um corretor para outro. Caso exceda essa diferença vai para um 3º corretor.

A primeira competência do Enem é a competência linguística. Então se espera uma modalidade escrita o mais próximo do formal possível, então evitar por exemplo, gírias. Ele exige uma norma, está escrito isso na prova ‘Norma Culta’, o mais próximo do que o aluno entende com a norma culta formal, respeitando principalmente pontuação, acentuação e, o mais importante, no ENEM, o que pesa é quando o aluno reincide no erro. Então o problema não é o aluno errar a vírgula uma vez, é ele errar a mesma vírgula mais de uma vez, porque isso é índice de que ele desconhece aquilo.

Segunda competência é o tema, acabamos de falar sobre isso, circular palavra-chave, colocar ao longo da redação. A terceira e quarta competências são muito importantes porque elas vão avaliar a conexão das ideias. Então o aluno tem que tomar muito cuidado, ele tem que garantir que um parágrafo dialogue com outro. Como ele pode fazer isso? Dica: começar os parágrafos com algum elemento de coesão, uma conjunção, por exemplo, ‘a partir do dito acima, portanto, logo’. Quando a gente começa o parágrafo com essas conjunções ou locuções conectivas, a gente evita que um parágrafo não tenha nada a ver com outro. Outra coisa que vai ser avaliada nas competências 3 e 4 é a qualidade na argumentação. Então fugir do senso comum. Outra dica muito valiosa para o Enem é evitar as generalizações. Não existe ‘a mulher’, o que existe são ‘mulheres’, são realidades múltiplas, diferentes.

Finalmente, o Enem é uma prova que ela tem um caráter social, então a quinta competência é a elaboração de uma proposta que ajude a resolver o problema ou a minimizar o problema. Eu acho que é mais interessante o aluno pensar numa proposta que minimize, é difícil pensar algo que resolva. Fugir das propostas mágicas, fugir das propostas utópicas, e tentar ser o mais concreto possível. Às vezes compensa mais o aluno fazer uma proposta simples, mas possível, do que sugerir, por exemplo, que no Brasil seja proclamada a república comunista, coisas assim que são muito utópicas.

Outra grande dica é não jogar nas propostas a responsabilidade somente para um ator social, quer dizer, eu faço uma proposta em que a responsabilidade para resolver o problema é só do Estado. Então a dica é, pensar num tripé: Estado, sociedade e indivíduo. Elaborar uma proposta em que a gente fale o que que o Estado pode fazer, o que que a sociedade pode fazer e o que o indivíduo na sua esfera íntima pode fazer.  Se o aluno falar o que o indivíduo sozinho pode fazer, o que a sociedade pode fazer e o que o governo pode fazer, ele tem uma proposta muito mais madura e aí ele garante esses 200 pontos, cada competência são 200 pontos, e a proposta de ação social é muito preciosa porque ela é uma das competências que, em geral, os alunos têm rendimento mais baixo.

Última dica é você já ir para o ENEM com uma estrutura de texto mais ou menos montada, não é um concurso literário. O Enem é usado como critério de seleção para universidade. Outra coisa que é importante não esquecer é evitar associações com o tema só para tentar mostrar repertório. Só para dar um exemplo, o tema é ‘Violência contra mulher’, aí eu cito Sartre. Quer dizer, será que é um teórico, um pensador que realmente vem a calhar para temática? Quer dizer, eu tô citando ali para colocar o nome, isso não quer dizer que eu li Sartre, não quer dizer que eu vou convencer, ainda mais se o candidato for lá ‘segundo Sartre, o inferno são os outros’, é a frase mais clichê. Isso não é índice de qualidade. Inclusive tem cursinho que dá lista de frases de pessoas famosas para usar em redação. Então compensa mais o aluno usar o seu conhecimento local, seu conhecimento prático, cotidiano, que é o melhor caminho que ele vai seguir.