Produtores de leite de apelos menos dez municípios da região sudoeste estão acampados desde ontem (17) em frente ao laticínio da empresa ARC Logística e Alimentos em Enéas Marques. O motivo da mobilização é o atraso nos pagamentos do produto, que chega a quase três meses. Os produtores chegaram ao local no início da manhã da quarta-feira, fecharam os portões do laticínio e impediram a entrada e saída de caminhões carregados de leite do local.

Durante o dia todo tentaram negociar uma solução, mas não obtiveram nenhuma resposta por parte da direção geral da empresa, cuja sede fica no interior de São Paulo.  A única informação veio do gerente da unidade, Luciano Lustoza, que falou com os manifestantes no final da tarde. Segundo ele, para que haja uma negociação os produtores precisam formar uma comissão e ir até a sede da empresa, caso contrário devem aguardar a presença do diretor na região, o que deve ocorrer somente após o Natal.

Indignados com o descaso, os produtores de leite garantem que vão permanecer no local. A direção do laticínio alega que não tem obrigação de pagar os produtores, uma vez que os valores devidos são referentes a compra do leite feita pela empresa LBR, que abriu concordata.  A administração atual garante que adquiriu o laticínio por meio de leilão e não pode pagar uma conta que não é sua. Por telefone o diretor geral repassou ao gerente que a empresa ARC Logística e Alimentos comprou um a estrutura que abriu concordata e não as contas dela. Dessa forma quem amarga os prejuízos são os produtores que precisam dos recursos para saldar seus compromissos.

O produtor Augustinho Guzatto de Francisco Beltrão é um dos prejudicados com a falta de pagamento. Com R$ 80 mil para receber já está enfrentando problemas com fornecedores e também não tem dinheiro para fazer o pagamento dos empregados. Situação bem parecida vive o produtor de Enéas Marques, Hermas Guadain. Com um saldo a receber de R$ 66 mil também não está podendo saldar suas dívidas junto aos fornecedores e a cada dia que passa fica mais complicado por que o rebanho não pode parar de comer.

Lideranças que representam o setor de agricultura da região têm acompanhado a luta dos produtores de leite e lamentam profundamente essa situação. A presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Francisco Beltrão, Cristielli Stembach, garante que além do rebanho e do pagamento de funcionários, os produtores também têm a família para manter e sem dinheiro fica complicado. “Estamos no final do ano, época de receber parentes para as festas do natal e ano novo e esses produtores não tem dinheiro para comprar nada, isso é complicado”, declarou. Quem também acompanha toda essa problemática é o representante da federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar (Fetraf –Sul), Diego Sigmar Kohwald. Pra ele, essa justificativa da empresa de que comprou apenas a estrutura não procede. “Se você casa com a viúva, os herdeiros vêm junto, então se a empresa comprou o laticínio consequentemente tem a responsabilidade de pagar os produtores, quitar as dívidas”, disse.

O advogado Arni Hall, que auxilia os produtores, diz que fez um levantamento e constatou que a empresa recebe em Enéas Marques cerca de 100 mil litros de leite por dia e sua dívida com os produtores chega a R$ 8 milhões, dinheiro esse que deixa de movimentar a economia local. Arni garante que a luta é muito válida e que os produtores não devem ceder em hipótese alguma. Os produtores decidiram ficar no local, apenas recuaram do pátio e liberaram os caminhões, mas sem a carga de leite.