“Não são cadeirantes, por isso não tem sensibilidade!”; um relato que faz refletir

por Redação RBJ em 28 de julho de 2016 14:40
por Redação RBJ em 28 de julho de 2016 14:40

Ir ao posto de saúde, ao mercado, à igreja do bairro, ao ponto de ônibus, visitar um vizinho na outra quadra, ou até mesmo aproveitar uma tarde ensolarada para fugir do frio de inverno, faz parte do direito constitucional de ir e vir. Mas este direito está sendo ferido pela falta de infraestrutura em localidades periféricas de muitas cidades.

Em Francisco Beltrão, não é diferente! Bairros como Industrial, Alvorada, Cango, Vila Nova e os bairros da Cidade Norte, apesar de serem populosos, não oferecem acessibilidade adequada para cadeirantes e deficientes visuais. Nem mesmo o centro da cidade foge disso. Problemas de interpretação da legislação dificultam o entendimento de quem é a responsabilidade de manter calçadas acessíveis e sem obstáculos.

images (1)Após um grave acidente de trânsito, Reinaldo Alaor Rodrigues, 52 anos, viu sua vida mudar drasticamente da noite para o dia. Antes, caminhava tranquilo pelas ruas de Beltrão sem perceber se existiam calçadas e como era a qualidade delas. Hoje, só sai de casa quando é preciso, pois sua cadeira de rodas não consegue ultrapassar os inúmeros obstáculos que encontra pelo caminho.

O maior agravante é que Reinaldo ficou tetraplégico e totalmente depende de dona Maria, sua esposa. “Eu quase não saio pra rua, porque a maioria delas é de paralelepípedos, o que dificulta andar, ainda mais com essas cadeiras monobloco que facilitam a queda. Aqui na Cidade Norte foram feitas calçadas novas, porém são impossíveis de subir. Algumas por não terem rampas, outras têm as rampas, mas não possuem a largura da cadeira, e outras ainda tem rampas, mas não são sinalizadas com pintura e placas, sendo que os veículos ficam estacionados em cima”, explicou.

Bancos localizados na Travessa Frei Deodato

Bancos localizados na Travessa Frei Deodato

Além das ruas irregulares e da falta de rampas, Reinaldo relata que em alguns locais existem postes de energia, bancos no meio da calçada e placas de sinalização fixadas no meio do passeio. Ele contou também que para ir até o posto de saúde, precisa utilizar o asfalto, já que em muitos lugares não é possível usar o passeio e nem a cadeira motorizada. “Antigamente tinha ambulância que vinha para me levar até a fisioterapeuta, mas de uns tempos para cá, deixou de vir uma enfermeira para auxiliar. Como sou um paciente acamado, e só tenho minha esposa para auxiliar, já sofri até quedas. É só minha esposa e o motorista da ambulância, que nem sempre é preparado para lidar com casos iguais ao meu”, relatou.

Dona Maria já desenvolveu problemas de saúde e hoje enfrenta dificuldades para locomover Reinaldo quando necessário. “Minha esposa já não pode fazer força pois desenvolveu até hérnia. Devido à falta de tripulação na ambulância, fiquei um ano sem fisioterapia. Agora está tudo certo, pois vem o pessoal do UBS para auxiliar. Mas isso só está acontecendo devido a um pedido judicial. E muita gente não sabe que as ambulâncias que não tem tripulação para casos como o meu, transgridem portaria do COREN e CONFEN”, afirmou.

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Avenida Júlio Assis Cavalheiro

O beltronense ressalta que o maior problema é a falta consciência social para detectar os problemas. “É difícil, porque quando a gente não tem deficiência, não temos tempo de parar pra pensar no outro. Tem muita coisa para melhorar e temos que falar sobre cidadania e continuar batendo na mesma tecla, para mudarmos aos poucos essa realidade”, diz ele, em forma de protesto.

Para finalizar a entrevista, Reinaldo deixa uma reflexão em meio a um desabafo. “Aqui em nossa cidade é difícil enfrentar o descaso com a acessibilidade urbana. Mudar a cultura sobre acessibilidade e mobilidade urbana parece ser uma guerra perdida. Nossos governantes não são cadeirantes, não tem sensibilidade com pessoas com deficiência”, concluiu.

Às vezes eu me questiono: qual a raça desses ‘seres humanos’?  Talvez sejam apenas ‘seres’ que não tem nada de ‘humanos’! (Reinaldo Alaor Rodrigues)

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