Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais é celebrado nesta terça-feira (24)

por Guilherme Zimermann em 24 de Abril de 2018 10:43
por Guilherme Zimermann em 24 de Abril de 2018 10:43

Nesta terça-feira(24), é celebrado o Dia Nacional da Língua Brasileira de Sinais (Libras). Segundo o último Censo realizado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), em 2010, mais de 2,3 mil pessoas residentes em Palmas, Sul do Paraná, possuem alguma deficiência auditiva.

Símbolo da Língua Brasileira de Sinais

O Dia Nacional da Libras foi instituído principalmente como alerta para as grandes dificuldades em acessibilidade que esses cidadãos enfrentam, da socialização ao mercado de trabalho.

Neste ano, teve inicio em Palmas a oferta do curso básico de Libras, através do Celem (Centro de Línguas Estrangeiras Modernas) da rede estadual de ensino. As aulas são realizadas às terças e quintas-feiras, no Colégio Estadual Sebastião Paraná.

De acordo com a professora Melania Dalla Costa, que atua no Celem e também na rede federal de educação, o objetivo é ampliar a oferta de cursos do gênero, por conta da demanda, não só do município, mas do estado e do país como um todo. “Os surdos e os números nos mostram que não só o surdo, mas a família dele precisa, os professores precisam da Língua Brasileira de Sinais”, aponta.

Em 2002, por meio da Lei nº 10.436, a Libras passou a ser reconhecida como meio legal de comunicação e expressão. A regulamentação ocorreu em 2005, quando um decreto presidencial incluiu, entre suas determinações, a inserção da Língua Brasileira de Sinais como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior.

O decreto prevê ainda que as Libras sejam ensinadas na educação básica e em universidades por docentes com graduação específica de licenciatura plena em letras.

No entanto, conforme destaca professora Melania, o número de surdos no sistema educacional é significativo e faltam profissionais qualificados para atuar como intérpretes, o que faz com que a legislação não possa ser cumprida integralmente. Além disso, há o impacto social, que vai muito além da escola. “A sociedade precisa perceber que esses alunos, que esses surdos são munícipes. Precisam perceber que essa população vai às lojas, vai aos bancos, porque nós vemos que eles não são percebidos […] e eles acabam tornando-se estrangeiros dentro do seu próprio país”, lamenta.

No player abaixo você pode acompanhar a entrevista com a professora Melania Dalla Costa.

 

Aqui, você conta com a transcrição do material:

Professora Melania Dalla CostaEsse ano iniciou o Celem. Antes só tínhamos Celem de Inglês e Espanhol, mas esse ano abriu-se o Celem de Língua Brasileira de Sinais e nós tivemos o privilégio de abrir uma turma em Palmas, no Colégio Sebastião Paraná. É um curso que só tem uma turma ainda, mas esperamos que no ano que vem abram-se duas, três turmas.

Nós esperamos e pretendemos que esse curso aumente cada vez mais, até por conta da demanda. A gente percebe que necessita, não só Palmas, mas o Paraná, o Brasil todo necessita de difundir a Língua Brasileira de Sinais. Os surdos e os números nos mostram que, não só o surdo precisa, mas a família do surdo, os professores que estão em sala de aula precisam da Libras. Essa minoria, que não é tão minoria, precisa ser valorizada.

Hoje nós temos no curso de Libras alunos do Sebastião Paraná, alunos de outas escolas, que vêm aprender para conversar com o surdo que está junto em sala de aula. Nós temos a família do surdo que vai aprender a Língua de Sinais na escola, porque Libras não se aprende naturalmente, ela vai ser aprendida na escola. Nós temos surdos aprendendo Libras,  porque o sinal que se faz em casa é apenas familiar, não é o que se aprende na escola, formalmente. O que nós percebemos é que nesse primeiro momento, o Celem está sendo bem aceito.

O número de alunos surdos que estão nas escolas é bem grande. Não estamos conseguindo mais, somente com os intérpretes, fazer essa comunicação. E ela é uma comunicação imediata, os intérpretes fazem essa comunicação somente imediata e os surdos não estão o tempo todo com os intérpretes do lado. Então, precisa que a sociedade perceba que esses surdos são munícipes, são nossos. Então, que percebam essa população, que vai às lojas, ao correio, aos bancos, porque nós vemos que eles não são percebidos dentro dessa sociedade.

RBJ – A senhora cita que o surdo precisa ir aos supermercado, às lojas, e muitas vezes essa deficiência na comunicação acaba tirando a cidadania, a dignidade dessas pessoas, não é?

Professora MelaniaÉ nessa falta da cidadania, nessa invisibilidade, porque só começamos a perceber quando está próximo de nós. Mas, o que a gente não vê, não sei se por falta de sensibilidade, de necessidade,  ou por pensar que é uma parcela mínima da população, não nos damos conta do quão faz falta essa comunicação, porque eles se transformam em estrangeiros dentro do seu próprio país.

A Libras não é uma língua simples, porque a nossa língua é oral-auditiva e a deles é visual-motora, mas também não é algo tão irreal, tão longe para se alcançar. Hoje temos vários aplicativos, cursos na Internet, o que torna a proximidade da Língua Brasileira de Sinais muito mais fácil do que quando em comecei a estudar, por exemplo.

E nós estamos aqui. Tanto eu, como o Colégio Sebastião Paraná está de portas abertas, aqui no Instituto Federal do Paraná também. Então vamos pensar realmente. Agora nós estamos numa inversão. Não são mais os surdos que têm que aprender a falar e sim, a população que deve aprender a ter essa comunicação visual-motora e também aprender a Libras, porque não?

A Escola Senhorinha Miranda Mendes tem a Libras como disciplina. Porque não colocar em todas as outras escolas? É uma ideia para o nosso prefeito. Nós temos a disciplina no magistério, quem sabe em todos os anos e não só no 4º ano. Vamos pensar numa inclusão diferente.

RBJ – Professora, qual caminho seguir para inclusão, tanto dos surdos como dos portadores de outras deficiências.

Professora MelaniaA inclusão deve ser feita por todos. A partir do momento que todos tomarem para si essa fala. Que o prefeito tome como seu, que o diretor do Instituto Federal tome como seu, que a diretora do Sebastião Paraná toma para si, que todos tomem como seu, aí sim vai virar inclusão.

O que acontece hoje é que a inclusão é feita apenas por alguns, mas ela só acontecerá de fato quando for feita por todos, quando todos assumirem a educação especial.

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