Aos 70 anos vovô colorado encontra ídolos

por Juliana Raddi em 6 de Março de 2018 11:39
por Juliana Raddi em 6 de Março de 2018 11:39

(Foto: Arquivo Pessoal)

A partida entre Internacional e Boavista pela Copa do Brasil  aconteceu no dia 31 de janeiro, no Estádio Olímpico de Cascavel e se tornou palco para a realização de um sonho. Após 40 anos sem acompanhar uma partida do time do coração, o torcedor Oclides Kurek ganhou um presente antecipado da família pelo aniversário de 70 anos. Natural de Nonoai no Rio Grande do Sul e atualmente residindo em Cascavel, o gaúcho teve a oportunidade de conhecer de perto seus ídolos.

Murilo, seu Oclides e Vinícius preparados para ir ao estádio.

Casado há 46 anos com Salete Kurek é pai de Andreomar Kurek e Taciana Kurek Bitencourt. Único colorado da família, mantém tamanha paixão pelo time que motivou os familiares a realizarem a surpresa. “Quando foi no primeiro jogo ele ainda caminhava e depois ficou muito difícil por conta da cadeira de rodas. Nos últimos anos a acessibilidade nos estádios permitiu levá-lo para ver o jogo”, conta Murilo Bitencourt, esposo da Taciana.

Oclides Kurek saiu de Nonoai aos nove anos e foi morar em Dois Vizinhos com os pais e irmãos. Em 1999 se aposentou e foi morar em Pato Branco. Em 2000 sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) resultando em sequelas, desde então teve que usar cadeira de rodas. Morou em Francisco Beltrão de 2003 até o final de 2015, quando mudou-se para Cascavel, onde reside atualmente.

 

A surpresa

“Estávamos planejando a festa de aniversário de 70 anos, aí soubemos do jogo. Comentei com minha esposa que não poderíamos deixar passar essa oportunidade. Antes de comprar os ingressos o Vinícius (neto) chamou a gente e reforçou a ideia. Ele disse [a gente tem que levar o vô assistir ao jogo!], então compramos os ingressos pela internet e fizemos uma surpresa para ele”, conta Murilo Bitencourt.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Vinícius Silvestre é namorado de Andressa Kurek, única neta do gaúcho, carinhosamente chamado pelo senhor Oclides como neto. Vinícius mencionou a partida durante uma conversa e seu Oclides confirmou que estava ciente da presença do seu time do coração ali pertinho. O que ele não esperava é que receberia naquele momento o ingresso com o seu nome, seguido da seguinte frase: “Olha aí vô, o nome do gaúcho que vai lá assistir ao jogo”.

Foi um momento de muita emoção, seguido pela ansiedade de retornar a um estádio, algo que não acontecia há 40 anos. Seu Oclides foi assistir o jogo acompanhado de Murilo e Vinícius. Eles chegaram por volta das 18 horas e estacionaram o carro dentro do estádio, na vaga destinada para deficiente físico.

Enquanto Murilo acomodava o torcedor em sua cadeira de rodas, Vinícius tratou de se infiltrar entre o pessoal da organização e conseguiu conversar com o chefe de segurança, que ouviu a história e pediu que eles retornassem após o jogo. “Na hora pensei em não contarmos para ele para não criar falsas expectativas então subimos para ver o jogo e assim que acabou seguimos para a saída do vestiário, perto da porta do ônibus”, conta Vinícius.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Como havia mais um cadeirante aguardando para ser atendido, alguns jogadores não viram Oclides que aguardava ansioso do outro lado. “Alguns passaram direto e subiram, como o Danilo Fernandes que também não nos viu”, conta Murilo. O volante Charles deu autógrafo, tirou a foto com o vovô colorado e gentilmente avisou Damião e Danilo que faltava apenas as assinaturas deles. Minutos depois, Danilo desceu e depois chamou Damião, todos os jogadores não só tiraram foto, quanto assinaram a bandeira do Internacional que ele portava amarrada em sua cadeira de rodas, em especial do jogador D’alessandro, grande ídolo do vovô.

Torcedores de outras times, Vinícius e Murilo foram ao jogo vestindo a camisa do Internacional com um único proposito, escrever uma nova história na vida do colorado Oclides. Ao término do jogo, fotos e autógrafos eles festejaram cada lance. “Ficamos imensamente agradecidos pela atenção com que o jogador Charles nos atendeu, depois de tirar foto e dar o seu autógrafo ele subiu e chamou o Danilo e o Damião, que com uma humildade enorme desceram do ônibus para realizar o sonho de Oclides”.

(Foto: Arquivo Pessoal)

 

 

Depoimentos

Taciana Kirek Bitencourt: “Falar do meu pai e desse momento é fácil, ele é meu herói. Cresci com seus ensinamentos. Um homem de muitos amigos, feliz, leal, companheiro, um ótimo contador de piadas e de gargalhadas fáceis e soltas. Hoje, por diversas vezes me pego olhando para ele e muitas delas não reconheço o riso em sua face, ou melhor, hoje o sorriso é travado em decorrência do AVC. Porém, reconheço a simplicidade e os valores que me foram transmitidos e que jamais sairão de mim. Para muitos pode parecer bobeira ou pouca coisa, mas para nós, levar ele ao jogo e proporcionar esse momento é grandioso, pois sabemos o quanto ele valoriza as pequenas e simples coisas que a vida nos oferece. Hoje quando entrei no quarto dele e ele me disse que estava rezando em agradecimento, tive certeza que demos o melhor e maior presente que ele poderia receber. Meu coração está transbordando de alegria só em ver os olhos dele brilhando de tanta emoção e o sorriso que muitas vezes trava sair fácil como antes. A bandeira, agora, toda autografada fará parte da decoração da festa de 70 anos onde reuniremos familiares e amigos queridos para prestigiar meu velho e amado pai.”

Murilo Cazaril Bitencourt: “Cada hora que passava e o jogo se aproximava era possível ver a alegria brilhando no seu olhar pela simples possibilidade de ir ao estádio ver o jogo.  Iniciou-se a partida pela qual torcíamos ávidos, não por preferência, mas sim para ver a felicidade nos olhos dele, que ficou emocionado ao nos ver com a camisa do seu time do coração. O jogo terminou empatado, mesmo assim nos era possível ver em seu olhar a felicidade e realização por ter assistido, no estádio, seu amado time após esperar mais de 40 anos. A parte mais incrível desse dia foi observar os olhos e os olhares dele para os jogadores que passaram um a um diante de seus olhos e lhe deram autógrafos, fotos e apertos de mão. Um orgulho dele de estar ali vivendo esse momento tão sonhado que significou tanto para ele. Temos muitas coisas cada dia para fazer e para viver, porém as coisas que nos fazem realmente felizes podem ser encontradas na felicidade do outro e isso com certeza foi o que aprendemos.”

Taciana, Dona Salete, Murilo e Oclides

 

Andressa Kurek – “Das lembranças mais antigas do meu avô, eu e ele éramos como melhores amigos, ele foi o único avô que tive a chance de conviver e ele é ‘o avô!’. Eu sou a única neta, mas quando meu namorado chegou, meu avô o acolheu como neto. Nossa família é muito unida e devemos isso a ele. Uma pessoa engraçada, com muitos amigos ao redor, tenho certeza que meu avô deixa marcas na vida das pessoas que ele conhece. Gosta de festa, bagunça, jogar baralho e ver o time dele jogar (não perde um jogo). Com o jeitinho dele consegue nos deixar feliz, acho que essa é uma das qualidades que mais admiramos. Sempre achei incrível como ele consegue transformar pequenos acontecimentos em coisas simbólicas, ele nos faz rir sem querer, simplesmente por olharmos uma foto dele e saber que naquele momento ele estava muito feliz, ou pelas histórias que ele conta. E por isso quando coisas acontecem, sabemos que para ele foi muito importante, ficamos felizes por ele como se fosse uma vitória, uma conquista que ele alcançou.”

Vinícius Silvestri: “Sempre considerei o avô de minha namorada como meu também, o carinho que tenho por ele, é amor de família. Prova disso é trocar por um dia as cores da camiseta alvinegra do meu Corinthians pelo vermelho e branco do Internacional. Torcedores que se prezem, sabem que não torcemos para outro time, muito menos vestimos a camisa. Mas nesse dia nada disso importava, ver a felicidade estampada no olhar de meu avô ao me ver aderir uma camiseta vermelha era inexplicável. Um jogo de estreia da copa do Brasil de 2018, parecia mais uma final de campeonato, pois eu torcia por cada lance, para poder compartilhar a alegria do Seu Oclides, de ver um gol do internacional ao vivo, depois de mais de 40 anos sem ter essa oportunidade. E o gol veio, e o vô comemorou do jeito dele, calmo, sereno, quieto, mas acredito eu que por dentro, não cabia alegria, acredito que a falta de reação veio, por ele nem acreditar no que estava acontecendo. Poder não só presenciar, mas ajudar a proporcionar este momento, é inexplicável, a felicidade dele é tão grande, que afeta a todos, o sorriso que levo no dia de hoje, é único e exclusivo por conta de meu Avô!”

Oclides, Andressa, Vinícius e Dona Salete

 

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