O que fazeis aqui parados todo o dia sem trabalhar?

por Luiz Carlos em 1 de Março de 2019 9:19
por Luiz Carlos em 1 de Março de 2019 9:19

O amor de Deus revela-se na responsabilidade pelo outro” (Bento XVI).

São Mateus, no cap. 20,1-16, descreve fatos com os diaristas da vinha. O protagonista do texto evangélico é um proprietário que contrata trabalhadores para a sua vinha em cinco horários diferentes assim distribuídos: saiu de manhã, no meio da manhã, ao meio dia, no meio da tarde e ao cair da tarde. Aos últimos indaga-os: “O que fazeis aqui parados todo o dia sem trabalhar”? Respondem-lhe: “Ninguém nos contratou”. O proprietário disse a todos os contratados a mesma sentença e promessa: “Ide também vós para a minha vinha e vos pagarei o que for justo”. Cinco oportunidades equitativas. Todos os desocupados foram contratados.

Inicialmente fomos surpreendidos pelo contratante que busca trabalhadores em horários diferenciados e em todos encontra pessoas “procurando serviço”, pessoas que querem ocupar-se em fazer alguma atividade. No final da jornada houve o pagamento. O tempo de serviço costuma ser de sol a sol. A promessa foi de uma diária. O patrão recomenda ao capataz: “Paga-lhes sua diária, começando pelos últimos e acabando com os primeiros”. Todos receberam a mesma diária.

Os primeiros contratados protestaram. Julgaram que o proprietário da vinha estava sendo injusto. Não ficaram satisfeitos com o recebido. Os últimos levam a mesma quantia prometida e cumprida. Os primeiros tinham uma ideia da justiça distributiva que exige proporção matemática de trabalho e salário. Sua ideia de méritos e direitos, gerando inveja e mesquinhez. O salário, na opinião dos da primeira hora era desproporcional. A generosidade do patrão sendo questionada. Ao que o próprio proprietário respondeu às acusações de injustiça: “Amigo, não te faço injustiça; não combinamos um denário? Portanto, toma o que é teu e vai-te. Eu quero dar ao último o mesmo que a ti. Acaso não posso dispor de meus bens como me agrada? Ou tens de ser mesquinho por eu ser generoso?”

Os últimos contratados não tinham patrão e nem trabalho. As horas avançam e suas necessidades fundamentais também. Quando Jesus conta aos discípulos a parábola evangélica rompe os esquemas mundanos de pensar a justiça. O relato chama-nos atenção para a inversão de valores. Os últimos sendo incluídos numa igualdade salarial. Esta inversão da ordem normal é significativa. Trata-se da justiça equitativa. Todos os trabalhadores da vinha precisam viver. Viver é um direito e obter o sustento de igual modo. O que proprietário deseja é que nenhum diarista fique um dia a mais sem trabalho. Simplesmente aquilo que uma família de camponeses da Galileia precisava cada dia para viver. Ele frustra as expectativas dos ambiciosos. Salário integral foi a promessa do contratante e, todavia, cumprida. Prevaleceu as necessidades humanas fundamentais para a sobrevivência destes homens desocupados.

A Campanha da Fraternidade deste ano de 2019 aborda a temática das “Políticas Públicas”, sob a reflexão bíblica do profeta Isaias “serás libertado pelo direito e pela justiça” (1,27). No Texto-Base, quando a Igreja trata sobre a participação da sociedade e os valores fundamentais, chama-nos à responsabilidade. Diz o Documento: “Todo cristão é convidado a se responsabilizar pelo outro. Cuidar para que os direitos e deveres se tornam uma realidade vigente é papel do cristão. A política é um meio para que o viver em sociedade possa promover a vida digna de todos os cidadãos. Todos são cidadãos, por isso devem ter seus direitos adquiridos respeitados e também devem cumprir com os seus deveres, pois tudo isso promoverá o bem da sociedade” (n. 228). Em três palavras podemos sintetizar o que nos propõe a Igreja para este tempo quaresmal: equidade, justiça e solidariedade.

Somos convidados, pois, a olharmos para os últimos, os que estão no ponto mais baixo da hierarquia da população trabalhadora, no território da Diocese de Palmas-Francisco Beltrão, são muitos, justamente por não terem propriedade e emprego que lhes servem como segurança. Sejamos cristãos comprometidos com as causas sociais, porque nelas podemos praticar a verdadeira caridade, justiça e equidade evangélica, sinais do Reinado de Deus. Sejamos, operários da vinha do Senhor, buscadores dos desempregados da 5ª hora.

 

Dom Edgar Ertl

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