MAGAZINE DE NATAL EXCLUSIVIDADE RBJ.COM.BR

Cartilha de Orientação Política

por Luiz Carlos em 13 de agosto de 2018 11:47
por Luiz Carlos em 13 de agosto de 2018 11:47

Entrevista com Dom Mauro Aparecido dos Santos sobre a Cartilha de Orientação Política

 

CNBB orienta para as Eleições 2018

Dom Mauro Aparecido dos Santos, Arcebispo Metropolitano de Cascavel e atual presidente do Regional Sul 2 da CNBB, concedeu entrevista exclusiva ao jornalista padre Judinei Vanzeto, colaborador das revistas Catedral e Rainha dos Apóstolos, sobre a “Cartilha de Orientação Política: Os cristãos e as Eleições 2018”.

Confira a entrevista:

Dom Mauro, qual a sua análise sociopolítica brasileira?

Dom Mauro: Não estamos sendo protagonistas da nossa caminhada e destino político. Deixamos-nos levar pelos meios de comunicação social, principalmente, do exterior e das grandes multinacionais. Não somos livres para decidir o nosso destino, pois somos influenciados pelas falsas informações que nos induzem ao erro. Os direitos dos cidadãos brasileiros não estão sendo respeitados. Nossos representantes estão surdos e mudos. Querem incutir em nós uma política econômica excludente, ditada pelo poder econômico internacional. Não estamos tendo liberdade econômica, social e política. Se não acordarmos para essa realidade, o que conseguimos com a Constituição Federal de 1988, podemos perder tudo e depois vem a miséria, a violência e a injustiça imperar em nosso meio.

A Igreja sempre procurou dar sua contribuição a partir de encíclicas sociais?

Dom Mauro: Desde a Rerum Novarum (Das Coisas Novas – encíclica escrita pelo Papa Leão XIII, em 15 de maio de 1891), a Igreja vem propondo ensinamento político, social e econômico e, por causa disso sempre foi muito criticada. Porém, procura não ser a protagonista da política, mas quando percebe que seus membros, bem como o povo de um país estão sendo deixados de lado, procura, então, dar orientações. No entanto alguns grupos de pessoas atingidas não aceitam as observações. Como esses grupos têm a força econômica, da política e da comunicação, criticam a Igreja, mas esta não pode ter medo das críticas, porque Jesus, sendo nosso Mestre, foi pregado numa cruz, porque quis que os excluídos fossem incluídos e pudessem fazer parte da sociedade.

O Regional Sul 2 produziu um subsídio para o entendimento de questões éticas políticas. Como foi a construção desse subsídio e qual o seu objetivo?

Dom Mauro: O Regional Sul 2 sempre teve essa criatividade, sobretudo, a partir das últimas eleições produziu cartilhas. Numa reunião do Conselho Permanente da CNBB, o secretário geral, dom Leonardo Steiner, pediu para que o nosso Regional estivesse à frente de uma que saísse em nome da CNBB Nacional. Aceitamos o desafio e conversamos com os assessores da CNBB Nacional e profissionais que entendem de legislação política, como, por exemplo, advogados e pessoas ligadas ao Tribunal Regional Eleitoral. Passamos a nos reunir em Curitiba e lá elaboramos um texto base que foi apresentado numa reunião do Conselho Permanente. Na Assembleia Geral da CNBB apresentamos uma ideia da “Cartilha de Orientação Política: Os cristãos e as eleições 2018”. Depois de pronta, diversos regionais começaram a solicitá-la. Já temos mais de 500 mil exemplares chegando a todo o Brasil. Nosso objetivo é fazer com que o cidadão tome consciência e atenda as palavras do Papa Francisco sobre o engajamento na política. O desejo é ajudar a refletir como escolher e eleger um bom candidato. Como não se omitir e cruzar os braços, porque da política dependem o salário, o emprego, a saúde, os preços dos alimentos e mercadorias em geral. Tudo isso envolve política e nós não podemos achar que política é coisa suja, algo de ladrão. Política faz parte do ser cidadão e quando ele se omite, abre espaço para os profissionais da política.

A CNBB sempre esteve atenta para a orientação dos fiéis. Qual a novidade da Cartilha?

Dom Mauro: Muitas pessoas estão tão desanimadas com a política e não querem mais votar. Querem anular o voto ou votar em branco. Então, a cartilha vem mostrar que se eu votar em branco, anular ou deixar de votar estou colaborando para com aqueles profissionais do voto, que continuem ganhando as eleições. Porque os fiéis desses candidatos podem chover até canivetes, irão votar. E esses candidatos com poucos votos conseguem se reeleger devido a nossa omissão. Sabemos que votos brancos ou nulos não valem e não anula eleição como dizem alguns fakes news que se espalham por aí. Ficam dizendo que se votar em branco e atingir mais que 50%, a eleição será anulada e os candidatos não poderão mais se candidatar. Isso é mentira. Voto branco ou nulo não conta como votos válidos. Por isso, as pessoas querem que você pense dessa forma porque os espertalhões da política têm seus eleitores no cabestrados.

O Documento 105 da CNBB trata sobre os leigos e leigas: “Sal da terra e luz do mundo”. Ele aponta para a necessidade da formação, espiritualidade e acompanhamento daqueles que tem aptidão para atuar na política. Na prática, como isso acontece?

Dom Mauro: Os leigos e leigas ainda não sabem a força que têm. Eles parecem, muitas vezes, um elefante amarrado numa estaca. O documento 105 quer mostrar essa força. Devem ser os protagonistas, os sujeitos. Não só na política partidária, mas na política brasileira como um todo, onde ocupam muitos espaços. Precisam assumir a Palavra de Deus e exigir que as coisas sejam transparentes, honestas, ocupar o seu espaço na sociedade. Se eu não ocupo o meu espaço, com certeza outros ocuparão. Alguns assumem tantos espaços que ficaram vazios e agem como ditadores. Isso não é democracia. Estamos acostumados a viver de favores. Chegamos até a agradecer o servidor público que atendeu bem. Atender bem é um dever do servidor nas esferas: municipal, estadual ou federal. Servidor público, no próprio nome, é aquele que está a serviço. Servidor público, candidato ou político que faz favor comete um crime. Porque toda sua ação deve estar dentro da lei. Fora da lei não tem privilégio, não tem favor.

O slogan antigo e atual: “Voto não tem preço, tem consequência”. O que se pode dizer sobre os cidadãos que continuam vendendo seu voto?

Dom Mauro: De fato repetimos este slogan em muitos ambientes. Na prática há pessoas que falam sobre a moralidade e a corrupção, mas essas mesmas pessoas vão aos candidatos pedir emprego. Precisamos crescer na consciência que para ser um servidor público precisa prestar concurso e ter conhecimento técnico. O cidadão deve criticar os cabides de empregos nas prefeituras, governo do estado e federal. Muitos dos impostos são gastos para manter os “chupins” que não estão fazendo nada, apenas recebendo salário e sem condições de trabalhar em prol do bem comum. O cristão leigo não deve pedir emprego e nem favor, mas exigir seus direitos e cumprir com os seus deveres.

Além de votar, o cidadão precisa acompanhar o eleito, mas não o faz. Como mudar essa realidade?

Dom Mauro: Primeiro votar em candidato que tem cheiro do povo. Os eleitores devem perguntar o que ele esta fazendo, fiscalizando. Escutamos dos eleitos: “Trouxe verba para isso e para aquilo”. Trazer verbas não é missão de um legislador. Sua missão é fiscalizar o executivo e o judiciário. Estamos, porém, vendo o Supremo Tribunal Federal legislando. Isso é um passo antidemocrático. Muitos agem como se fossem deuses, tomam decisões e o povo tem que engolir. Isso é omissão do nosso legislativo. Lembro o ditado: “Não existe prefeito, governador ou presidente corrupto. O que existe é o poder executivo e legislativo corrupto”. O executivo tem a chave do cofre e legislativo o segredo. Esse cofre só abre com anuência dos dois poderes. Nós eleitores precisamos exigir fiscalização dos desvios de verbas, para que o dinheiro do povo, arrecadado através dos impostos, seja revertido em seu benefício.

Onde adquirir a Cartilha e qual a sua orientação?

Dom Mauro: A cartilha pode ser adquirida em todas as paróquias ou diretamente na CNBB Sul 2 pelos telefones (41) 3224 7512 ou e-mail: [email protected]. O mais importante não é adquiri-la, mas refletir seu conteúdo. Não ter medo e nem vergonha de apoiar um candidato. Fui a todos os Decanatos explicar a cartilha e percebi que um ou outro ainda há a preocupação: “Será que a Igreja não está se intrometendo no ambiente que não é dela?” Mas quando essas pessoas começam ouvir o bispo se questionam: “Se o bispo está falando, então porque nós também não temos coragem de começar a discutir sobre o assunto?”. Nós sabemos que não é Brasília a culpada. Quando vou à reunião do Conselho Permanente, em Brasília, quantas vezes escutei: “Aqui em Brasília está a sujeira do Brasil”. Os brasilienses não aceitam. E dizem: “Quem manda essa sujeira são vocês”. Eles veem de todos os lugares do Brasil. Que essa cartilha seja discutida na base. O voto acontece no município e é ali que moram as pessoas.

Ainda gostaria de dizer algo que não foi perguntado?

Dom Mauro: Não podemos deixar a polarização tomar conta. Há algum tempo, víamos uma polarização muito forte em nossa região. Os “pães com mortadela” e os “cochinhas”. Um brigando com o outro. Nisso quem sofre é o povo, os mais desprotegidos. Em Angola tem um ditado: “Quando dois elefantes brigam, quem sofre é a grama”. Acontece muito em nossa região essa bipolarização. Também vemos agora outro tipo de bipolarização política: quem é corrupto e o não corrupto. Temos que observar se a pessoa tem condições de administrar em prol do bem comum, de ouvir quem pensa diferente. A ditadura de pensamento não é democrática. Nem alguém que acha que tem poder e manda. Nós achamos que não temos poder e obedecemos. O nosso poder é igual o de todos: o voto! Votar bem e analisar se o candidato sabe o porquê e para que será eleito. Depois ele não pode fazer coisas absurdas e esquecer-se do povo que o elegeu. O povo é o tesouro de um país. O tesouro não é uma economia boa, mas o povo ter o que comer. Ter trabalho digno e o pão de cada dia com o suor de seu rosto. Não adianta dizer que o Brasil é um país rico, quando o povo é pobre, passa fome e morre.

Entrevista concedida no dia 02 de agosto de 2018 ao jornalista padre Judinei Vanzeto, SAC

Compartilhar