Campanha da Fraternidade e os três verbos pedagógicos

por Luiz Carlos em 23 de Fevereiro de 2018 9:32
por Luiz Carlos em 23 de Fevereiro de 2018 9:32

Desde o dia 14 de fevereiro de 2018, Quarta-feira de Cinzas, a Igreja vive o Tempo da Quaresma como tempo propício, tempo teológico à conversão, para celebrar com júbilo a vitória pascal de Jesus Cristo sobre a morte e a páscoa como passagem à Vida Eterna, promessa de Jesus aos seus seguidores. Concomitantemente, a Igreja Católica no Brasil vive a Campanha da Fraternidade, e tem como objetivo geral “construir a fraternidade, promovendo a cultura da paz, da reconciliação e da justiça, à luz da Palavra de Deus, como caminho de superação da violência”. O Tema deste ano é a “Fraternidade e superação da violência”, acompanhado do Lema Bíblico “Em Cristo somos todos irmãos” (Mt 23,8). A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) prepara sua reflexão amparada em três verbos pedagógicos, a saber: olhar, julgar e agir. Formam como que o tripé da Campanha e os critérios para que os objetivos alcancem o seu fim e não seja um tempo infrutífero.

Olhar. A radiografia sobre a violência no Brasil é assustador. Os números são reais. Eles não mentem. Nosso país responde por 13% dos assassinatos do planeta, das múltiplas formas de violência, gerando já um sistema de criminalidade. Pasmem! Tipologias de violência no Brasil contemporâneo: violência racial, contra os jovens, contra mulheres e homens, violência doméstica, exploração sexual e tráfico humano, violência contra trabalhadores rurais e contra os povos tradicionais, violência gerada pelo narcotráfico e corrupção, e, sobretudo pela ineficiência do aparato judicial. Temos problemas em relação à polícia e prática desproporcional aos crimes e delitos, violência e direito à informação, problemas com a religião, violência no transito, chegando a uma epidemia nas grandes festas e feriados, gerados pelo alto consumo de bebidas alcoólicas e drogas ilícitas. Pelo tamanho do Brasil podemos dizer que vivemos uma tragédia humana quando falamos de violência. Por ano, quase 60 mil brasileiros são assassinados. A maioria pobres, negros, jovens e moradores da periferia. É como se quiséssemos dizer, sem admitir, que a violência se perpetuou neste país, chegando ser um problema estrutural. Este é um dos maiores desafios contemporâneos a ser superado em curto prazo. Como ainda podemos dizer que em “Jesus Cristo somos todos irmãos e irmãs”?

 Julgar. O segundo verbo é o julgar segundo os critérios bíblicos, teológicos, eclesiais e com auxilio das ciências, especificamente as humanas. Julga-se pela Sagrada Escritura, a partir do Antigo Testamento, onde a comunhão fora rompida pelo pecado, porém, Deus misericordioso não abandona seus filhos; e do Novo Testamento, cujo centro é Jesus Cristo, que é por excelência uma pessoa não violenta. Ele que anuncia o Evangelho da reconciliação e da paz. Propaga o amor aos inimigos como regra suprema, a regra de ouro. Olhando à Escritura a Igreja convida-nos a promover a cultura do diálogo, tendo como modelo o “Decálogo de Assis para a Paz”, uma iniciativa de São João Paulo II, quando papa em 2002.

Agir. Trata-se de pistas concretas. São as ações para superação da violência a partir da pessoa, do individuo, da família e da sociedade, promovendo a cultura da fraternidade, porque não somos adversários, mas irmãos e irmãs. Além disso, precisamos despertar as comunidades eclesiais para as obras sociais como caminho de superação da violência. Faz-se urgente que promovemos uma espiritualidade que desperte-nos para os valores fundamentais como a vida, dom de Deus, uma graça inegociável. Para tais pistas de ação trata-se de observar o Estatuto do Desarmamento, o Estatuto da Criança e Adolescentes, as Defensorias Públicas, a Lei Maria da Penha e os Direitos Humanos como iniciativas sociais de enfrentamento da violência.

Que as palavras do Papa Francisco nos ajudem nesta Campanha da Fraternidade: “Em Cristo somos da mesma família, nascidos do sangue da cruz, nossa salvação. As comunidades da Igreja no Brasil anunciem a conversão, o dia da salvação para conviverem sem violência”. Sejamos, pois, discípulos missionários construtores e anunciadores da fraternidade e da paz.

Dom Edgar Ertl

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