A ambição de Simão Mago 

por Luiz Carlos em 9 de Março de 2018 9:21
por Luiz Carlos em 9 de Março de 2018 9:21

Simão era ambicioso. De Simão, vem simonia. A etimologia da palavra provém o termo técnico de Simão Mago, personagem referido nos Atos dos Apóstolos (cf. 8,18-19), que procurou comprar de São Pedro, Apóstolo de Jesus, o poder de transmitir pela imposição das mãos o Espírito Santo ou de efetuar milagres.

Pedro e João estavam em Samaria e impunham as mãos sobre o povo para que recebessem o Espírito Santo. Neste lugar o povo acolhera a Palavra de Deus, embora a cidade fosse meio pagã, meio apóstata, infestada de sincretismo. Os enviados do Senhor foram bem recepcionados, não obstante aos desafios que lhes aguardavam. Mesmo assim o clima espiritual era favorável à missão dos Apóstolos. Era um campo de catequese, um areópago próprio para os “evangelistas ambulantes”. Não podiam temer nem retroceder para Jerusalém.

Simão é um ser ambíguo, boa mostra de um sincretismo turvo e cultivador assíduo de práticas mágicas. Sabe iludir o povo e se apresenta como um ser excepcional, investido de poderes extraordinários. Ambicioso e vendo que o Espírito Santo era concedido quando os Apóstolos impunham as mãos, ofereceu aos Apóstolos dinheiro: “Dai-me também esse poder de conferir o Espírito Santo a quem eu impuser as mãos” (At 8,18-19). Indignado com tamanha ousadia, Pedro lhe responde: “Pereça o teu dinheiro e tu com ele, se crês que o dom de Deus está à venda” (At 8,20).

Simão têm cobiças e pretensões econômicas. Ele imagina um rito mágico que controla e dispensa as forças sobrenaturais. Propõe-se comprar esse poder, talvez para acrescentá-lo ao seu repertório mágico. Pedro o amaldiçoa. Fica irado. O dom de Deus não se compra. Não é negócio. Ele é teológico. Faz parte do conteúdo da fé. Deus é livre e rico em generosidade, gratuito no amor e no perdão. Não admite barganhas. Por dentro Simão está cheio de fel e preso com cadeias segundo os critérios econômicos e de sua profissão com magias. A economia nunca teve coração e nem alma. Contudo, segundo a narrativa dos Atos dos Apóstolos, há lugar ainda no coração deste mago para o arrependimento e para pedir perdão da maldade. Pedro termina exortando-o. Não considera imperdoável sua culpa pretensiosa. Diante da atitude de acolhida de Pedro, Simão, o mago, propõe-lhe suplicando: “Rezai por mim ao Senhor, para que não me aconteça nada do que dissestes” (At 8,24).

O tema da simonia é antigo. Fez grandes estragos em muitas instituições, inclusive na Igreja Católica, nossa comunidade de fé, maculando-a e desfigurando-a por um longo período da história. Ela fez sua Mea Culpa através de vários Papas e Concílios. A simonia é uma tentação maldita. Assistimos hoje quase que um “mercado religioso” em ascensão no Brasil. Funda-se templos e “igrejas” para vender milagres, curas e prosperidade. E há uma legião de “Simões Magos” fundadores que oferecem, em nome de Deus, desde que haja um pagamento para tais necessidades. É a “lei da oferta e da procura”. Receber poderes de Deus e trocá-los por moedas e outros valores. Desejo de poder para conferir o “Espírito Santo a quem eu impuser as mãos” e deste “oficio” receber os dividendos pelo serviço feito.  Fiquemos atentos!

O dom de Deus não se vende. Não se troca e não se permuta. É dom. É presente do Criador às suas criaturas. Tenho acompanhado casos de cristãos em nossa Diocese de Palmas –Francisco Beltrão que no desespero, diante de “doenças inexplicáveis à medicina científica” buscam em alguns “expertos Simões”, um resultado imediato, uma explicação convincente e em troca disto, gastos exagerados e, na conclusão da ópera, nada de melhoras e os milagres tão almejados não surtem os efeitos desejados. Neste caso dinheiro e poder não se conjugam.

Pedimos ao Senhor nesta Quaresma pela nossa própria conversão. Que não tenhamos a tentação de Simão Mago de comprar os poderes de Deus e trocá-los por moedas e benefícios próprios ou para manter ideologias de poder e de negócios. Ele, Simão se converteu com a pregação dos Apóstolos Pedro e João, que anunciavam a Boa Nova de Jesus Cristo e, Dele receberam o poder de impor as mãos sobre as pessoas, como gesto de amor na pura gratidão e não como “comércio religioso”.

Dom Edgar Ertl

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